quarta-feira, setembro 07, 2016

Os perigos de uma única história – Reserva Naval vs AORN




Há tempos atrás, deparei na caixa de correio com um texto da conferencista Chimamanda Ngozi Adichie, escritora nigeriana de nacionalidade, reconhecida como uma das mais importantes jovens autoras anglófonas que está a atrair, com sucesso, uma nova geração de leitores de literatura africana e que aconselho vivamente a ler. Não satisfeito com uma primeira leitura transversal menos atenta, voltei a ler, reli novamente e repeti ainda uma última vez.



Fixando-me apenas na analogia, vou deixar de lado quer o tema visado que a conferencista aborda de forma tão simples como acutilante, quer a forma e espírito com que o fez. Confinar-me-ei a uma marcada identificação com a ali tão bem reafirmada aversão cultural à construção estereotipada de modelos de uma única história.

Uma única história, repetida e divulgada sistematicamente sempre da mesma forma, retira a possibilidade de lhe acrescentar outras mais-valias, suportadas num contraditório dinâmico de uma possível segunda versão. Versão que complete uma história que se deseja de consenso alargado, alicerçada em testemunhos de factos e acontecimentos relatados pelos que a viveram e nela participaram.

Mas afinal que tem a ver este meu deambular sobre o perigo de uma única história com Reserva Naval vs AORN? A Reserva Naval compreende um universo constituído por uma classe de oficiais que pertenceram à Marinha de Guerra Portuguesa, naquela qualidade e enquadrados na e sob a responsabilidade da casa-mãe, a Armada.

A AORN–Associação dos Oficiais da Reserva Naval foi e será apenas uma associação constituída por sócios que terão sido ou não oficiais da Reserva Naval, de acordo com os estatutos daquela e que a ela tenham aderido mediante o pagamento de uma quotização numa das diversas classificações estatutárias de "admissibilidade de sócio" previstas.

Será obrigatório acrescentar que a condição sócio originário apenas poderá ser atribuída a um antigo Oficial da Reserva Naval de acordo com o estabelecido no "...Artigo Quinto dos Estatutos - Dos Associados , UM, alínea a): Todos os que tenham servido como Oficiais, na Reserva Naval da Marinha de Guerra Portuguesa, criada pelo Dec.-Lei nº 41399 de 26 de Novembro de 1957..."

Pode afirmar-se com propriedade que houve 3.598 oficiais da Reserva Naval da Marinha de Guerra. Entre 1958 e 1975 a Escola Naval formou 1.712 oficiais em 25 cursos das mais variadas classes. Entre 1976 e 1992 esse número foi acrescentado de mais 1.886 novos oficiais, correspondentes a 943 cadetes integrados em 41 cursos realizados da Escola Naval e a outros tantos 943 cadetes, em 37 cursos levados a cabo na Escola de Fuzileiros.

Dos 1.712 oficiais dos primeiros 25 cursos, cerca de 50% terão sido mobilizados para as mais diversas funções e missões na então Guerra do Ultramar/Guerra Colonial, nos teatros de Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe. Como notas curiosas, em Macau também prestou serviço um oficial e até mesmo em Timor desempenharam missões outros 2 oficiais da Reserva Naval.

Foram missões e serviços de complexidade variável, alguns deles de elevado risco, onde tiveram cabimento a nomeação para comandos e outras missões em unidades navais ou de fuzileiros, desde simples acções de fiscalização e patrulha até ao combate, em transportes, apoios, escoltas e também ainda servindo em unidades ou serviços em terra, ombreando com oficiais dos Quadros Permanentes e dos outros Ramos das Forças Armadas.

A AORN é a única associação existente que, desde 1995, ano da sua fundação, representa aquele conjunto de oficiais, enquanto sócios. No decorrer do tempo de vida da associação, ao longo de vários mandatos directivos têm sido diversos os "avisos à navegação", relativos a um percurso que parece estar a revelar-se escasso na prossecução dos princípios estatutários por que se deveria reger a colectividade e os objectivos a atingir.

Poderá a história da Reserva Naval da Marinha de Guerra Portuguesa e dos seus 3.598 oficiais que por ela desfilaram vir um dia a ser devidamente salvaguardada, no espaço e no tempo, por espólios diversos constituídos por documentos, imagens, relatos e testemunhos, deixados à guarda da AORN – Associação dos Oficiais da Reserva Naval, na qualidade de sua fiel depositária?

Terá a AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval ganho a confiança da Instituição Marinha - Armada - e de um conjunto significativo de antigos oficiais da Reserva Naval, sócios e outros associados, para que lhe venha a ser conferido o pleno direito de exercer essa qualidade de representante única e fiel depositária de tão importante memória histórica?

Pessoalmente, julgo que não! Parece-me razoável que pairem muitas dúvidas por esclarecer. O inexorável relógio do tempo, estreitando cada vez mais o horizonte de sobrevivência da AORN ao último Reserva Naval vivo ditará, ou não, da veracidade desta minha inqualificável profecia de Velho do Restelo.

Assumo que, integrado no conjunto das responsabilidades partilhadas, não terei tido a capacidade, eu próprio, de “levar a carta a Garcia” enquanto sócio e colaborador até meados do ano de 2004. Também depois, apenas como colaborador externo até ao final do ano de 2014, com o espírito Reserva Naval de que me orgulho de estar permanentemente imbuído.

Ter-me-á faltado certamente engenho e arte para debater objectivos e temas com os meus pares ou terei aceite demasiadas vezes a condição de remetido ao silêncio nas reuniões de trabalho e acções em que participei e foram muitas.


Em qualquer caso, continuarei a ser detentor da inalienável qualidade adquirida de antigo oficial da Reserva Naval da classe de Marinha do 8.º CEORN. Foi um privilégio pessoal e uma mais-valia académica, profissional e humana a que, orgulhosamente, posso acrescentar a invulgar situação de ter sido licenciado no posto de 1.º tenente, em 1972, por efeito do prolongamento voluntário do tempo de serviço prestado na Marinha.

Ao longo destes últimos anos terei ganho motivação suficiente para me manter a rabiscar num modesto blogue pessoal iniciado em 2006, a título meramente pessoal, farrapos de memórias Reserva Naval, expressando livremente opiniões, publicando relatos, imagens e documentos ou simplesmente divulgando notícias que considerei de interesse cultural.

Para esta dimensão, sem pretensões, ultrapassada a encorajadora fasquia de 311.000 visitas, ainda que no decorrer do tempo o silêncio nos comentários tenha sido maioritariamente ensurdecedor, os aspectos positivos foram suficientes para que mantenha afastada a ideia de abandono, no sentido de desistência da minha visão escrita de retalhos das memórias Reserva Naval.

Em consciência, profissionalmente distante de um perfil de historiador ou sociólogo, creio ter atingido um tempo de balanço neste meu exercício pessoal, forçado pela minha própria participação Reserva Naval e vontade de concluir um projecto idealizado já há alguns anos. Pelo caminho, foi muito o tempo dispendido ao sabor de algum mau tempo, vagas alterosas e diversas correntes, a que aliei uma tendência desmedida para alargar o âmbito do projecto inicial e também muita inexperiência da forma como lidar com temas de tal complexidade.

Existe uma subtil tendência para avaliar de forma grosseira, com leveza e ausência de conhecimento, a disponibilidade, meios necessários e tempo dedicado a pesquisa, recolha, compilação, tratamento e publicação de documentação de memórias históricas. É frequente a classificação do trabalho de quem mete mãos à obra como efectuado em tempo de lazer ou ainda como possível devido à disponibilidade de tempo de quem o faz.

Em vez de valorizar, motivando quem constrói, subalterniza-se diminuindo a qualidade da construção ou, bem pior, ignorando a construção. Terá o caminho percorrido desde 1997 sido feito no respeito por instituições e pessoas? Certamente que houve da minha parte esse cuidado que procurarei continuar a trilhar, mas tal não será impeditivo de manifestar desacordos pontuais sempre que se justificarem.

É tempo de não se correr também o perigo de uma única história da Reserva Naval e o articulado neste texto, sob aquele título, será por mim futuramente abordado com diferentes perspectivas, como que regressando a uma anterior rota, temporariamente abandonada devido a “marés e ventos desfavoráveis”.

Na qualidade de não sócio, encerro estes comentários com estas reflexões:

A Reserva Naval com génese num projecto de dimensão nacional na casa-mãe Marinha de Guerra Portuguesa completa este ano de 2016 o 59.º Aniversário;

O 8.º CEORN - Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval que integrou 68 cadetes e a que eu próprio pertenci, foi alistado na Escola Naval em 9 de Outubro de 1965, completando no mesmo ano de 2015, meio século de ingresso na Instituição. Terá havido da parte da AORN a preocupação de organizar e/ou apoiar qualquer tipo de encontro/convívio, habitual em iniciativas relativas a efemérides de cursos Reserva Naval? Se teve lugar alguma realização, em que qualidade e dimensão foi levada a cabo com a Escola Naval, a Instituição que acolheu aquele curso da Reserva Naval?

A Associação dos Oficiais da Reserva Naval comemorou no ano transacto o seu "20.º aniversário AORN", optando por abandonar um anterior percurso de vários anos de comemoração do "Dia da Reserva Naval" em que se apelava ao universo de Oficiais Reserva Naval, em vez de apenas "Sócios da AORN e convidados".

Porque me parecem invertidos valores e prioridades?

Da mesma forma que acima se critica o inexplicável, também se cumprimenta a Direcção da AORN pelo regresso este ano, ainda que parcialmente, a um anterior figurino expresso na comunicação prévia efectuada:

"...As Comemorações estarão abertas a todos os Camaradas que prestaram serviço na Marinha e respectivos acompanhantes, estendendo-se, deste modo, a toda a Reserva Naval...".


Manuel Lema Santos, 8.º CEORN
1.º TEN RN 1965-72 (lic)
Guiné, LFG "Orion" 1966-68
Comando Naval do Continente, 1968-70
EMA, 1970-72

Fontes:
Anuário da Reserva Naval 1958-1975, Adelino Rodrigues da Costa Manuel Pinto Machado, Lisboa 1992; Anuário da Reserva Naval 1976-1992, Manuel Lema Santos, Lisboa, 2011; Foto do arquivo pessoal do autor, gentil cedência da Escola Naval;



mls

terça-feira, março 01, 2016

Reserva Naval 1958-1992






A Reserva Naval da Marinha de Guerra Portuguesa encarnou, para todos os Oficiais que por lá desfilaram, muito mais do que uma forma, dita civilizada, de cumprimento do serviço militar obrigatório.

Ao tempo, uma opção pessoal possível num percurso universitário completo ou em vias de o ser, passagem obrigatória no rumo de vida traçado, ao serviço da cidadania e do país onde nasceram.

Diria melhor e mais correctamente, da Pátria.

A evasão temporária ao amplexo paternalista, algum inconformismo e a necessidade inadiável de transpor aquela linha no horizonte terão sido algumas das motivações.

Outras tantas, eventualmente condicionadas por aspectos pessoais, profissionais, familiares e também económicos.

De um lado, incertezas, anseios, dúvidas tumultuosas, sentimentos contraditórios e algumas perspectivas goradas, mas também natural confiança e esperança.

Do outro, o salto no desconhecido, arrojado mas sonhador, a aventura e o desejo de bem cumprir.

Se para muitos configurou uma escolha alternativa enquanto no desempenho de um dever cívico, para outros terá representado uma ponte provisória para a vida profissional.

Ainda para alguns, em menor número mas mais tarde, a própria carreira profissional.

Escola Naval, viagem de instrução e juramento de bandeira marcaram, em sucessão, formação académica e humana, camaradagem e também crescimento.

Em cenários de guerra como Moçambique, Angola e Guiné, mas igualmente em S. Tomé, Cabo Verde e no Continente, quase quatro mil Oficiais da Reserva Naval desempenharam funções ao serviço da Marinha de Guerra Portuguesa.

A navegar ou em terra, como oficiais de guarnição ou nos fuzileiros, todos fazendo parte do transbordante testemunho de solidariedade, generosidade e convívio partilhado com as Unidades e Serviços onde permaneceram.

Ombreando com militares e camaradas de outros ramos das Forças Armadas.

Ganhando acrescido sentido de responsabilidade e maturidade.

Grangeando pelo cumprimento, pelo exemplo e pela dedicação, a amizade, admiração, respeito e camaradagem de superiores, subordinados e também das populações com que contactaram.

Na memória que o tempo não apaga, esfumam-se relatos, acontecimentos, documentos, registos, afinal História.

História da Reserva Naval e da Marinha de Guerra que lhe deu origem.

No espírito Reserva Naval, um passado comum a preservar.

Uma palavra para todos aqueles que nos deixaram prematuramente, chamados para a última viagem.

Estarão sempre connosco!




mls