segunda-feira, julho 24, 2017

13.º CFORN - Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval, Ago1968


Listagem completa do 13.º CFORN.




O tradicional registo de família na portaria da Escola Naval


Foi o segundo curso realizado no ano de 1968, a exemplo do ano anterior que foi assinalado pela incorporação de dois Cursos de Formação de Oficiais da Reserva Naval.

Com 90 cadetes, o 13º CFORN foi alistado em 29 de Agosto de 1968 e incorporou 90 cadetes assim distribuídos pelas várias classes: 26 cadetes na classe de Marinha, 4 cadetes na classe de Médicos Navais, 1 cadete na classe de Farmacêuticos Navais, 5 cadetes na classe de Engenheiros Maquinistas Navais, 19 cadetes na classe de Administração Naval, 21 cadetes na classe de Fuzileiros e, finalmente, 14 cadetes na classe de Técnicos Especialistas.

O Juramento de Bandeira teve lugar em 9 de Abril de 1969.



O Juramento de Bandeira do 13º CFORN, em 9 de Abril de 1969

Foi também o ano em que ardeu a ala poente do Edifício da Ribeira das Naus, onde estavam instalados o Instituto Hidrográfico e a Escola Náutica. Ali, até 1936, havia funcionado igualmente a Escola Naval.

Tal como do anterior, foi Patrono deste curso o Rei D.Manuel I, por cognome o “Venturoso” (1469/1521). Subiu ao trono em 1495, sucedendo a D. João II. No seu reinado, em que Lisboa atingiu o cume do desenvolvimento de entre as cidades europeias, foram lançadas as bases do Império Português do Oriente, numa época em que os portugueses chegaram à Índia, ao Brasil, à Indonésia e à Terra Nova. Data também deste reinado o início da construção do Mosteiro dos Jerónimos e da Torre de Belém.

Comandava a Escola Naval o Comodoro Lino Paulino Pereira e o Director de Instrução foi o CTEN Pedro Pinto Basto de Sá e Azevedo Coutinho.



O Comodoro Lino Paulino Pereira, Comandante da Escola Naval e o Director de Instrução, CTEN Pedro Pinto Basto de Sá e Azevedo Coutinho

No final do período de instrução, o Prémio “Reserva Naval” foi entregue ao cadete da classe de Médicos Navais, Pedro Manuel da Silva Bernardo Gonçalves. Este prémio destinava­-se a galardoar o aluno com classificação mais elevada no conjunto da frequência escolar e da apreciação de carácter militar.



O Almirante CEMA Armando Roboredo e Silva, entrega o Prémio Reserva Naval ao cadete MN RN Pedro Manuel da Silva Bernardo Gonçalves

Durante o ano de 1968, para a prossecução do plano de modernização da Marinha, conjuntamente com a necessidade de reforçar os meios navais empenhados na Guerra do Ultramar, tinham sido aumentados ao efectivo dos navios da Armada as fragatas «Almirante Magalhães Correia», «Comandante Hermenegildo Capelo» e «Comandante Roberto Ivens», o submersível «Barracuda», a lancha hidrográfica «Cruzeiro do Sul» e as LFP «Arcturus», LFP «Aldebaran», LFP «Procion» e LFP «Aljezur».

No decorrer do mesmo período, tinham sido abatidos, ao mesmo efectivo, as fragatas «Corte Real», «Diogo Cão», «Diogo Gomes», o navio-patrulha «Sal» e ainda a LFP «Castor». A fragata «Diogo Cão» terá realizado a sua última viagem com os cadetes do anterior curso, em 22 de Agosto de 1968, após o que se procedeu ao seu abate.

Já em 1969, a Marinha iria ser dotada de novas unidades: a fragata «Comandante Sacadura Cabral», os navios-patrulhas «Cacine», »Cunene», «Mandovi» e «Rovuma», projecto de dez unidades nascido na sequência da anterior classe «Argos» e os submersíveis «Cachalote» e «Delfim».



A classe de Engenheiros Maquinistas Navais do 13.º CFORN

Também ao longo daquele ano foram abatidas ao efectivo algumas unidades algo obsoletas: a fragata D. Fernando, antiga «Diogo Gomes», que mudou de nome em 31 de Outubro de 1968, tendo ficado sempre fundeada no Mar da Palha até ao seu abate, em 20 de Abril de 1969; seguiram igualmente o mesmo caminho a canhoneira «Diu», a lancha de fiscalização «Espadilha» e o submersível «Náutilo».

Numerosos oficiais da Reserva Naval desempenharam missões nestes navios, quer nos entretanto abatidos quer nos aumentados ao efectivo, todos eles tendo representando a maioria daquelas unidades navais um papel relevante na História da Reserva Naval.

Enquadrando-se na política do Comando-Chefe das Forças Armadas da Guiné, em 21 de Abril de 1969 , foi activado o primeiro Destacamento de Fuzileiros Africanos na Guiné, o DFE 21 que, mais tarde, viria a participar na operação “Mar Verde”. A formação daquele Destacamento decorreu em Bolama num barracão improvisadamente adaptado a coberta, sala de aula, refeitório, etc., e que passou a designar-se como “Centro de Instrução”. Para aquela unidade foi destacado o 2TEN FZE RN José Carlos Freire Falcão Lucas.




Em cima, o Centro de Preparação de Fuzileiros em Bolama e, em baixo, Caserna do Centro de Instrução



Três oficias da Reserva Naval deste curso, 2TEN RN Carlos Manuel Pacheco Teixeira da Silva, 2TEN RN Hernâni Vidal de Rezende e 2TEN RN António José Jorge Barreira, ingressaram posteriormente no Quadro Permanente dos Oficiais da Armada.

Deste curso, seguiram para comissões muitos dos seus elementos, como Comandantes, oficiais Imediatos de navios, oficiais de guarnição, integrando Companhias e Destacamentos de Fuzileiros ou Unidades e Serviços em terra, tendo sido designados para prestar serviço em África, ou Continente e Ilhas, os seguintes oficiais:

Deste curso, seguiram para comissões muitos dos seus elementos, como Comandantes ou oficiais Imediatos de navios, integrando Companhias e Destacamentos de Fuzileiros, tendo sido designados para prestar serviço em África, ou Continente e Ilhas, os seguintes oficiais:

Guiné (9 Oficiais):

2TEN RN Alfredo Manuel de Paiva Pacheco, LFG «Cassiopeia»;
2TEN RN João Manuel Nunes Vaz, LFG «Sagitário»;
2TEN RN Luís Manuel Ferreira Marques, LDG «Bombarda»;
2TEN EMQ RN Orlando Francisco Santos de Castro Vasconcelos, CDM da Guiné;
2TEN Fernando Manuel Pires Claro Teixeira, CDM da Guiné;
2TEN AM RN Francisco Manuel Lucas Ferreira de Almeida, Serviços de Marinha>;
2TEN FZE RN António José Jorge Barreira, DFE 8;
2TEN FZE RN Carlos Manuel Pacheco Teixeira da Silva, DFE 8;
2TEN FZE RN José Carlos Freire Falcão Lucas, DFE 21;

Cabo Verde (3 Oficiais):

2TEN RN Francisco José Pimenta Lopes Teixeira, corveta «Cacheu»;
2TEN MN RN Mário Gastão Rodrigues Lopes, corveta “Cacheu”;
2TEN RN Joaquim Manuel Dias Quintas, Comando Naval de Cabo Verde;




A corveta «Cacheu»

Angola (16 Oficiais):

2TEN RN Álvaro Babiano Costa e Moura, navio-patrulha «Cunene»;
2TEN RN Fernando Manuel da Conceição Correia, navio-patrulha «Mandovi»;
2TEN RN Fernando José Serafim dos Santos, LFG «Pégaso»;
2TEN RN Francisco António Rosado Barreto Caldeira, LFP «Pollux»;
2TEN RN Gaspar Miranda Teixeira, LFG «Dragão»;
2TEN RN João Crisóstomo Matos Alves Antunes, LFP «Rigel»;
2TEN RN José Luís Ramalhete Suspiro, Comando Naval de Angola;
2TEN AN RN José Maria Pedreira Reina, Comando Naval de Angola;
2TEN AN RN Luís da Cunha Teixeira e Melo, Comando Naval de Angola;
2TEN RN José Maria Palma Nobre Franco, navio-patrulha «Cacine»;
2TEN RN Júlio Domingos Pedrosa de Luz Jesus, LFP «Espiga»;
2TEN FZE RN António Manuel de Castro Almeida, CF 8;
2TEN FZE RN Hernâni Vidal de Rezende, DFE 10;
2TEN FZ RN Francisco José dos Santos Sobral Leal, CF 8;
2TEN FZ RN Manuel João Alvão Serra, CF 8;
2TEN ZE RN Mário José Marinho da Rocha, CF 9;

Moçambique (24 Oficiais):

2TEN RN Carlos Alfredo Alves Bravo, Comando Naval de Moçambique;
2TEN RN Francisco Manuel Craveiro Direitinho, Comando Naval de Moçambique;
2TEN RN João Luís da Silva e Noronha Falcão, Comando Naval de Moçambique;
2TEN RN Fernando Raul Baptista do Carmo, LDG «Cimitarra»;
2TEN RN Jorge Eduardo Pereira de Resende Garcia, fragata «Vasco da Gama»;
2TEN RN José Luís Correia Belo, Comando de Defesa Marítima dos Portos do Lago Niassa;
2TEN EMQ RN Jorge Manuel da Silva Fialho, Comando de Defesa Marítima dos Portos do Lago Niassa;
2TEN MN RN António José Pinto de Almeida, Comando Naval de Moçambique (AV);
2TEN AN RN José António Álvares Salazar de Campos, Comando Naval de Moçambique (AV);
2TEN MN RN José Manuel Martins Ferreira Coelho, CF1;
2TEN MN RN Pedro Manuel da Silva Bernardo Gonçalves, Comando de Defesa Marítima do Porto de Porto Amélia;
2TEN AN RN Júlio Henrique Pires no Comando de Defesa Marítima do Porto de Porto Amélia;
2TEN AN RN António de Paiva e Silva, navio-tanque San Brás;
2TEN FZ RN Álvaro Eduardo Ferreira, CF 1;
2TEN FZ RN Apolino Luz Martins, CF 1;
2TEN FZ RN Ernesto de Matos Durão, CF 1;
2TEN FZ RN Francisco Luís Tavares de Sousa Gomes, CF 1;
2TEN FZE RN António Nobre Rama, DFE 9;
2TEN FZE RN Ismael da Costa Monteiro, DFE 9;
2TEN FZE RN Victor Manuel Lima Palmeira, DFE 9;
2TEN FZ RN António Maria Amaro Monteiro, CF 2;
2TEN FZ RN Mário Temundo da Costa Macedo, CF 2;
2TEN FZ RN Sebastião Tavares Coutinho, CF 2;
2TEN FZ RN Vitor Manuel Gonçalves Crespo, CF 2;




A LFP “Pollux” em Angola.

Continente, Ilhas e Outras Unidades (38 Oficiais):

2TEN RN António Paulo Conceição Sequeira Mendes, GR nº 1 EA;
2TEN EMQ João Maria Dargent de Albuquerque, GR n.º 1 EA;
2TEN AN RN António da Conceição Soares de Oliveira, GR n.º 1 EA;
2TEN AN RN Manuel Dias Ramos Pereira Ramalho, GR n.º 1 EA;
2TEN RN Artur Augusto de Mesquita e Queiroz Machado, GR n.º 1 EA;
2TEN RN João Carlos Cardoso Gonçalves Machás, GN n.º 1 EA;
2TEN RN Eliseu Teixeira Crespo, Direcção dos Serviços de Instrução;
2TEN RN João Eduardo Reis da Conceição, Instituto Hidrográfico;
2TEN AN RN José Manuel de Castro Sousa Miranda, Instituto Hidrográfico;
2TEN RN Carlos Luciano da Costa Monteiro, Instituto Hidrográfico;
2TEN RN Manuel Maria Pimenta Gil Mata, Instituto Hidrográfico;
2TEN RN João Alberto de Carvalho Correia Marques, Comando Naval dos Açores;
2TEN RN Luís Jorge Monteiro da Costa, Estado-Maior da Armada;
2TEN RN Joaquim Marques de Ascensão, Estado-Maior da Armada;
2TEN RN Jorge Manuel Ribeirinho Soares Machado, Estado-Maior da Armada;
2TEN RN José Manuel Duarte Henriques, Estado-Maior da Armada;
2TEN RN Rui Ferreira Afonso Lucas, draga-minas S. Jorge;
2TEN RN Vasco Samuel Caetano, Escola de Fuzileiros;
2TEN FM RN Pedro Amadeu de Albuquerque Santos Coelho, Hospital da Marinha;
2TEN EMQ RN Francisco Cardoso Nunes de Almeida, Direcção do Serviço de Abastecimento;
2TEN EMQ RN João José Ramos e Costa Abecassis, Direcção do Serviço de Abastecimento;
2TEN AN RN António Pedro de Sá Alves Sameiro, Direcção do Serviço de Abastecimento;
2TEN AN RN Mário Jorge Martins de Carvalho, Direcção do Serviço de Abastecimento;
2TEN RN António Fausto Lucas Rodrigues Pires, Direcção do Serviço de Abastecimento;
2TEN AN RN Alfredo Baptista Mendes Videira, Serviços Mecanográficos da Armada;
2TEN AN RN José Manuel Rodrigues de Jesus Toscano, Serviços Mecanográficos da Armada;
2TEN AN RN António Matias Fernandes, Administração Central de Marinha;
2TEN AN RN Fernando Augusto Barbosa Ribeiro, Intendência dos Serviços de Administração Financeira da Marinha;
2TEN AN RN Joaquim Alberto Alves Porto, Intendência dos Serviços de Administração Financeira da Marinha;
2TEN AN RN José Salomão Coelho Benoliel, Intendência dos Serviços de Administração Financeira da Marinha;
2TEN AN RN Rogério Francisco Martins Dias Beatriz, Intendência dos Serviços de Administração Financeira da Marinha;
2TEN AN RN Fernando Augusto Barbosa Ribeiro, Direcção das Construções Navais;
2TEN AN RN Rui Manuel Janeiro da Costa, Direcção das Construções Navais;
2TEN FZ RN José Manuel Pereira da Costa, Força de Fuzileiros do Continente;
2TEN RN Canuto Joaquim Fausto de Quadros, Companhia de Adidos;
2TEN RN Fernando Augusto Silva Cunha de Sá, Chefia dos Serviços de Justiça;
2TEN RN Luis Augusto Pestana Mourão, Direcção do Serviço de Electricidade e Comunicações;
2TEN RN Olímpio de Sousa Coelho, Esquadrilha de Submarinos.




João Crisóstomo Matos Alves Antunes, Francisco António Rosado Barreto Caldeira e Júlio Pedrosa da Luz Jesus.



Fontes:
Arquivo de Marinha; Anuário da Reserva Naval, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Dicionário de Navios e Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, 2006; Fuzileiros-Factos e Feitos na Guerra de África, Guiné, Luis Sanches de Baêna; Texto do autor do blogue compilado e corrigido a partir do publicado na Revista n.º 17 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Março 2004; Fotos de Arquivo do autor do blogue com cedências de origens diversas;

mls

sábado, julho 22, 2017

Guiné - Acção dos Fuzileiros na Guerra do Ultramar


Os Fuzileiros na Guiné

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 20 de Fevereiro de 2010)





Em 6 de Junho de 1962 chega a Bissau o primeiro Destacamento de Fuzileiros Especiais, o DFE 2, comandado pelo 2TEN Pedro Manuel Vasconcelos Caeiro.

Numa acção, em Dezembro desse mesmo ano, aquele oficial foi o primeiro a sofrer ferimentos em combate durante a guerra do ultramar, obrigando à sua evacuação e rendição.

Até ao fim da guerra, passaram pela Guiné 24 Destacamentos de Fuzileiros Especiais aos quais devem ser acrescentados ainda três Destacamentos de Fuzileiros Africanos, os DFE 21, DFE 22 e DFE 23. Este último não chegou a ser activado.

Durante o mesmo período, integraram ainda o dispositivo militar naquele território, 11 Companhias de Fuzileiros e 3 Pelotões de Reforço.




O Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 2 de partida para a Guiné.

Do total de 74 fuzileiros mortos em combate, durante a guerra, 50 tombaram na Guiné. Assim se compreende bem o significado que este teatro teve e ainda tem para os fuzileiros.

Este pequeno filme, realizado na Guiné, pretende ser uma homenagem a todos os fuzileiros que combateram em África e, muito especialmente, aos que combateram naquele território.

Locução: Júlio Isidro


Fontes:
Filme editado e montado pelo autor do blogue a partir de original cedido pela Escola de Fuzileiros, originalmente filmado com a colaboração da Marinha; foto de "Fuzileiros - Guiné", factos e Feitos na Guerra de África, Luís Sanches de Baêna;


mls

quarta-feira, julho 19, 2017

Guiné, 1963/74 - Rio Cacheu e emboscadas à Marinha no Tancroal


Tancroal-Temível local de emboscadas e ataques à Marinha

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 11 de Janeiro de 2010)


Recebi há dias uma comunicação do companheiro e camarada de lides da Guiné Victor Barata, especialista da FAP/DO, sedeado no blogue “Especialistas da BA 12”.

Formulava os simpáticos votos de Bom Ano 2010 e informava-me de que estava disponível no YouTube o vídeo já publicado no post anterior.




BA 12 - A Base Aérea de Bissalanca, fotografada em Fevereiro de 1973.

Retribuí em dobrado os votos, extensivamente a todos os companheiros. Depois de solicitar autorização, procedi à inserção do vídeo neste blogue com a devida referenciação e incluindo o texto completo do autor – Alferes Pilav Jorge Félix dos “Canibais” Guiné – Alouette III, igualmente companheiro e camarada.

A excelente qualidade da edição e montagem do vídeo quase não deixa perceber o “fade in” (passagem gradual de uma imagem para outra) de algumas fotos, bem "misturadas" no filme. A música aviva o ambiente e embora gostasse de ouvir lá encaixado, como fundo musical, o "Paint it Black" dos Rolling Stones, conotado desde sempre com a guerra do Vietname, o autor foi ele, Jorge Félix, e está de parabéns pelo invulgar trabalho executado.

Não consegui resistir às imagens do vídeo publicadas e deixei-me arrastar pela emoção das recordações. Muitos dos camaradas da Marinha que, também ali no Cacheu, honraram valores por que se bateram, já não estão entre nós para a devida apreciação de alguém que, louvavelmente, se lembrou dos marinheiros.

Alguns pagaram com a vida e outros regressaram diminuídos quando, nas LDM, LDP, LFP, LDG, LFG ou integrando DFE e CF, se empenharam no cumprimento das missões que o País lhes exigiu. Outros, felizmente vivos, sentiram e sentem no decorrer do tempo o definhar de ideias e valores que, ainda num passado recente, eram reflexo do sentir da sociedade em que foram educados e viveram.




Mapa da zona do rio Cacheu com pormenor do Tancroal.

Binta, representava para as LFG, depois de deixar Farim rumo a Vila Cacheu, para juzante, uma pausa para a preparação do acto seguinte, na escolta às LDG que tinham deixado carga ou trocado companhias do Exército, até três normalmente, formadas por homens experientes mas cansados e desgastados psicologicamente, por outras idênticas integradas por homens ainda sem experiência mas de espírito fresco.

Normalmente, um grupo de combate de fuzileiros "ajustava" o dispositivo de segurança e, o sentimento de que a FAP, com os nossos prateados vigilantes do céu, estava em situação de alerta-solo com comunicações permanentes connosco, sempre tornava o "cruzeiro" mais simpático.




No rio Cacheu, o cais de Ganturé (Bigene) com a LFG "Orion" atracada com duas LDM de braço dado.

Depois de cinco a seis horas de navegação e o desfilar das zonas especialmente "hospitaleiras" como Canjaja, rio Olossato, Porto de Batu (Tancroal), Jagali, Concolim, rios Sambuiá e Talicó, Porto Coco, Ganturé (Bigene), Iador, Barro, Canja, rio Armada, o Porto da Ponta de S. Vicente marcava, finalmente, como que uma fronteira para o abrandamento do dispositivo. Ainda mais para juzante, depois de Maca, rios Jol, Churo, Zagaia e Caboiana, lá aportávamos a Vila Cacheu, agora já em zonas sem grandes sobressaltos.

Deve dizer-se que, até ao final da guerra, nunca a Marinha se deixou intimidar por emboscadas e ataques, mesmo com graves consequências e, nesse mesmo momento, voltava atrás repetindo a passagem mais uma ou duas vezes, num desafio permanente. Havia ainda e deve ser dito que, ocasionalmente, um grupo de combate de fuzileiros embarcados queria, por vezes, lançar os botes à água e ir a terra "acertar as contas" com a rapaziada do PAIGC.




Imagem de um avião Harvard T6 estacionado no sul da Guiné, na pista de Cufar, modelo de aeronave que participava no apoio aéreo, em operações e escoltas.

Tudo pouco conhecido, ainda menos divulgado e convenientemente esfumado no tempo, que tudo limpa. Borrachas políticas com tecnologia de ponta que permitem apagar Memória e História recente, à medida de mal disfarçados interesses e construídas com o sofrimento e amargura de quem não consegue esquecer.

A clareira do Tancroal, em Porto de Batu, no rio Cacheu, era um local obrigatoriamente batido pelo nosso fogo de reconhecimento, tentando evitar que os sinistros RPG 2 e 7, metralhadoras ligeiras, pesadas e canhão sem recúo se fizessem anunciar nas calorosas manifestações de boas-vindas do PAIGC. Foram muitas vezes de graves consequências e, alguns casos, dramáticas.




A clareira de Porto de Batu - Tancroal.

Em 26 de Dezembro de 1963, ao cair da noite, a LFG «Dragão» sofreu uma violenta emboscada no rio Cacheu, na zona do Olossato, em Porto Batu - Tancroal, naquele que viria a tornar-se um local de permanentes “dores de cabeça” para as unidades navais que, no percurso de ida e volta a Farim, tivessem de navegar frente àquela clareira.

Do ataque, que com alguma sorte apenas provocou danos materiais, resultaram 22 impates de bala perfurante e ficou destruído o oculta-chamas e a patilha de arranque da comutatriz da peça Boffors de 40 mm, a ré. Ficou também furada uma garrafa de ar comprimido.

Em 13 de Janeiro de 1968, pelas 20:30, a LFG «Lira» juntamente com a LDG «Alfange», esta com três companhias embarcadas que deixavam a zona de Binta, a CCaç 1546, e de Farim as CCaç 1548 e a CCS, todas do BCaç 1887, ali foram violentamente emboscadas. Se alguém daquelas unidades ler estas linhas, recordar-se-á certamente, pois terá sido uma despedida pesada para quem regressava ao país e à família. A LDG «Alfange» foi mandada retroceder e aguardar em Binta até ao dia seguinte.

A LFG «Lira», que antecedia e escoltava a LDG «Alfange», foi atingida com 2 granadas de RPG 7, uma na ponte de comando e outra no rufo da casa da máquina sofrendo 1 morto, fuzileiro, 4 feridos graves e três ligeiros, todos pertencentes à guarnição, além de prejuízos materiais diversos.




Em cima, a ponte da LFG "Lira", mostrando o local do impate de uma das granadas de RPG 7, a EB e, em baixo, uma outra perspectiva captada do corredor interior da ponte.



Ainda tiveram de navegar durante cinco horas para chegar até Vila Cacheu, como se pode imaginar em condições muito difíceis, sem comunicações, sem girobússola e com avarias diversas, além das baixas.

Ali, já estabelecidas as comunicações com Bissau, os helicópteros da FAP evacuaram os feridos graves cerca da 01:00 da manhã e um DO 27 evacuou os restantes ao raiar do dia. No dia seguinte, a LFG «Sagitário», entretanto saída de Bissau, foi buscar a LDG »Alfange» com um grupo de combate de fuzileiros e o apoio da Força Aérea.




Em cima, uma imagem do rufo da casa das máquinas atingido por outro dos projécteis de RPG 7 e, na imagem de baixo, são bem visíveis os danos provocados nos botes de borracha pelos estilhaços.
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Duas semanas depois, nos dias 29 e 30 de Janeiro, as LFG «Cassiopeia» e novamente a LFG «Lira», com os Destacamentos de Fuzileiros Especiais 10 e 12 embarcados, levaram a efeito na zona e, em conjunto, as operações “Alpheratz” e “Antares", varrendo a área e infligindo ao inimigo 12 mortos, 3 feridos e 2 elementos capturados além de habitações várias e equipamentos destruídos.

Foi assim a guerra para ambos os lados. Estilhaços, sangue e o cheiro a morte por todo o lado. Camarada de curso e oficial imediato da LFG «Lira», o 2TEN RN Jorge Calado Marques, do 8º CEORN, recentemente falecido, ficou surdo de um dos ouvidos no ataque sofrido, projectado violentamente pelo sopro do impacto contra a chapa interior da ponte, lesão de que nunca recuperou.

Embora quase todas as unidades navais ali tivessem sido emboscadas, são poucos ou quase inexistentes os registos. Aqui ficam algumas fotos da sua autoria, testemunho mais que eloquente de algumas das mazelas, apenas as do navio claro, porque muitas outras não ficaram documentadas.

Ficarão todos para sempre registados na nossa memória.


Fontes:
Imagens cedidas pelo 2TEN RN Jorge Manuel da Silva Calado Marques, 8.º CEORN oficial imediato da LFG «Lira», 1966/68 e 2TEN RN Abel Ivo de Melo Sousa, 20.º CFORN–DFE 1, Guiné 1972/74; imagens de arquivo do autor; textos compilados de apontamentos do Arquivo de Marinha.


mls

sexta-feira, julho 14, 2017

Guiné, voo 1390...como é bom recordar!


Reserva Naval e Voo 1390...como é bom recordar!

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 9 de Janeiro de 2010)




Guine, 1973 - No ar, a bordo de Alouette III


Quem navega no espaço cibernauta está sempre sujeito a ser colhido por surpresas, algumas vezes gratificantes.

Afinal, com um “click” certeiro, aí está um estímulo para continuar a defender e participar nesse grande espaço de liberdade onde, à distância desse “click” podemos avançar ou recuar no tempo.

Recuar mais de meio século no nosso volátil tempo de vida só é acessível, como plena vivência, se conseguirmos associar esse recuo, em sincronia, à recordação dos episódios vividos e às emoções sentidas nesse momento passado.

Aconteceu comigo há dois dias ao visitar um blogue de companheiros e camaradas da antiga Base Aérea n.º 12, em Bissalanca, na Guiné, como todos certamente se recordam. Um antigo camarada e companheiro enviou-me uma mensagem para ver o post «VOO 1390 COMO É BOM RECORDAR...» com um vídeo publicado no YouTube nesse mesmo dia, da autoria do Alferes Pilav Jorge Félix dos “Canibais” Guiné – Alouette III, e de que, com a devida referenciação, abaixo transcrevo integralmente o texto:





“VOO 1390 COMO É BOM RECORDAR...

Caro Victor,

Acabei de colocar no Youtube umas imagens que recebi do Sr. Pierre Fargeas e editei à minha moda. É uma viagem de BS até Binta, rio Geba e rio Cacheu. Da nossa Bissalanca só o emblema dos Canibais.
Mons Pierre Fargeas era o Técnico da fábrica dos Heli Alouette destacado em Bissalanca salvo erro entre 68 e 74. No ano passado, por magia, encontrámo-nos no ciberespaço da Net.
Aerograma para lá, aerograma para cá, recebi em dada altura um vídeo, gravado por ele durante a sua estadia em Bissau, com imagens minhas que depois "montei" e coloquei no YouTube com o título "BAFATA".
Nesse vídeo vêm mais documentos fotográficos que tenho andado a "trabalhar", com a devida autorização do Mons Pierre, e desta vez fiz uma pequena homenagem à Marinha. É uma viagem de Bissau a Binta. Tem momentos encantadores.
A chegada a Binta e o ambiente no cais foram para mim uma surpresa. Mas o que destaco e chamo a atenção é para o minuto 4 e 30 seg, a similitude que tem com imagens que o Francis Ford Copola empregou no "Apocalypse Now" em 1979. Ainda lá coloquei o "Satisfation" dos Stones mas depois decidi-me pela música do Mangione. São sete minutos, muito para a vossa paciência, pouco para o que os homens da Marinha fizeram por todos nós.
Se me permites, por ter lidado com eles o bastante para lhes saber os nomes, gostaria de os recordar nesta modesta homenagem: Fuzileiros, Rebordão de Brito, Benjamim Abreu (ambos já falecidos) e Alpoim Calvão.
Se escrevermos no Youtube, Binta Rio Cacheu, vamos ao endereço deste pequeno vídeo. Gostaria de ter a tua opinião quando o visses e se achares bem dá-lhe o destaque no nosso Blog, se ele tanto merecer.

Abraço, desta feita, do tamanho do Cacheu.

Jorge Félix
Alferes Pilav dos “Canibais” Guiné – Aloutte III




Aqui o deixo pregado como me deixou a mim, em nome da Marinha, dos Fuzileiros e dos locais evocados.

Guilherme Almor Alpoim Calvão, pertenceu aos Quadros Permanentes da Marinha de Guerra, comandou na Guiné, de 1963/65, como 1.º Tenente, o DFE 8, regressou àquele território em 1969 e comandou o CTG3 que incluía o rio Cacheu entre a foz do rio Canjaja, a montante, e a foz do rio Armada, a juzante, incluindo uma faixa terrestre a sul. Mais tarde, em acumulação, dirigiria o COP 3 que passou a contar com 3 Destacamentos de Fuzileiros. Em 1970 planeou, montou e dirigiu, a bordo da LFG «Orion» a Operação “Mar Verde” a Guiné Conakry. Ascendeu ao posto de Capitão-de-Mar-e-Guerra.

Os 2TEN FZ RN Alberto Rebordão de Brito e 2TEN FZ RN Benjamim Lopes de Abreu, ainda ambos como Sub-Tenentes da Reserva Naval, o primeiro ingressando da Reserva Marítima e o segundo pertencendo ao 10º CFORN, integraram ambos o DFE 12 como terceiro e quarto oficiais, na Guiné, de 1967/69. Mais tarde, de 1971/74, estiveram novamente na Guiné, no DFE 22, o primeiro como Comandante do destacamento e o segundo como seu Oficial Imediato. Ingressaram nos Quadros Permanentes ascendendo ao posto de Capitão-de-Mar-e-Guerra e são ambos falecidos.


Fontes:
A partir de mensagem enviada por Victor Barata, especialista da FAP/DO e autor do blogue http://especialistasdaba12.blogspot.com/2010/01/voo-1390-como-e-bom-recordar.html; Fuzileiros - Factos e Feitos na Guerra de África,1961/1974, Luis Sanches de Baêna, 2006; Imagem inicial cedência de Abel de Melo e Sousa, DFE 1, 1973;


mls

quinta-feira, julho 13, 2017

Guine, Bissau - Exercício de Fuzileiros, anos '60


Um Exercício de Fuzileiros com início no INAB - Instalações Navais de Bissau, com locução adequada aos cenários.


Visível o transporte de um Destacamento de Fuzileiros para a ponte-cais e o embarque numa LFG-Lancha de Fiscalização Grande, a LFG "Cassiopeia", P 373.

Como mero pormenor, na largada de Bissau, pode observar-se o cumprimento do comandante da LFG, ao navio mais antigo, a fragata Nuno Tristão - F 332, atracada no exterior do cais.

Seguem-se de todas as tarefas de preparação para uma operação com transbordo para uma LDM - Lancha de Desembarque Média.

Depois, o respectivo desembarque no local agendado para a missão.

Na sequência do desembarque todas as acções que se seguiriam nessa missão imaginária com a participação de helicópteros da FAP.

Talvez alguma mediatização excessiva no armamento utilizado no exercício simulado. Qual a origem do matraquear da metralhadora pesada que se ouve?

Também a LFG "Cassiopeia", P 373, não era um «aviso» mas uma Lancha de Fiscalização Grande.






Fontes:

Filme editado e montado pelo autor do blogue a partir de cópia de filme gentilmente cedida pela Escola de Fuzileiros, originalmente filmada com a colaboração da Marinha.

mls

sexta-feira, julho 07, 2017

Reserva Naval em Angola - DFE 6, 1973 / 75 (Parte II)


Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 6, «Os Tubarões»
Angola, 1973/75 – parte II


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 5 de Janeiro de 2010)

(final)



Distintivo do DFE-6, Angola 1973/75.


O 25 de Abril de 1974 apanha o DFE 6 em plena actividade operacional no Leste de Angola, Chilombo. Apenas dois dias depois o Destacamento toma conhecimento formal da Revolução, através de uma mensagem do Comando do Movimento das Forças Armadas.

Na sequência desse processo, a unidade é deslocada para Luanda entre Julho e Agosto, após o que, no dia 5 deste último mês, o aquartelamento do Chilombo é entregue a um pelotão do Exército.

A LDP 208 é deixada no Chilombo, tendo-lhe apenas sido retirada a peça anti-aérea Oerlinkon de 20 mm, o mesmo sucedendo às duas peças de protecção ao aquartelamento.




Em cima, a peça Oerlinkon de 20 mm no respectivo abrigo e, em baixo, a LDP 208 varada na margem do rio Zambeze



O deslocamento do DFE 6 para Luanda é efectuado em duas fases. Na primeira fase, ainda durante o mês de Julho, o comandante, 1TEN EMQ José Manuel Correia Graça e o 2TEN FZE RN Jorge Manuel de Pina Paiva e Pona Franco, do 21.º CFORN, com a maior parte do destacamento, seguem por via aérea, a partir da Lumbala, em aviões Nord Atlas da Força Aérea.

No início de Agosto, o imediato, 2TEN FZE RN Sérgio Tavares de Almeida, do 20.º CFORN, e o oficial do pelotão de apoio, 2TEN FZ RN Alberto José do Santos Marques Cavaco, do 20.º CFORN é integrado na CF 6, seguem em coluna de viaturas até Teixeira de Sousa (actual Luau), com o restante pessoal e todo o material pesado. Nesta cidade embarcam no comboio e seguem por via férrea até Nova Lisboa (actual Huambo), onde embarcam novamente nas viaturas, seguindo depois em coluna motorizada até Luanda.




Em cima, a estação dos caminhos de ferro de Teixeira de Sousa (Luau) e, em baixo, traçado do percurso Chilombo - Teixeira de Sousa (Luau) - Nova Lisboa (Huambo) - Luanda



Durante os cerca de oito meses em que o DFE 6 se manteve em Luanda, foi-lhe atribuída a missão de segurança e protecção do Palácio do Governo, quando era Alto Comissário o Almirante Rosa Coutinho. Esta missão surgiu na sequência de uma manifestação da população branca que terminou com uma tentativa de invasão do Palácio onde se encontrava o Almirante.




Em cima, a baía de Luanda nos anos '70 e, em baixo, igualmente em Luanda, a fortaleza de S. Miguel, onde foi arriada a última Bandeira Portuguesa



Alguns dos manifestantes conseguiram mesmo entrar numa das salas do rés-do-chão, tendo levado a que Rosa Coutinho subisse para cima de uma mesa e falasse aos manifestantes, conseguindo acalmá-los.

O Destacamento, que tinha sido incumbido de controlar a manifestação, acabou por expulsar os manifestantes e, a partir desse dia, permaneceu nas instalações de modo a evitar que novas situações deste tipo tivessem lugar.




Em cima, uma manifestação das forças políticas e, em baixo, uma individualidade de um dos movimentos de libertação



Durante este período Luanda foi palco de múltiplas manifestações levadas a cabo pelos três movimentos revolucionários, MPLA, UNITA e FNLA, que assim pretendiam mostrar a sua força nas ruas. Essas manifestações tinham invariavelmente o seu ponto alto em frente ao Palácio do Governo.




Em cima, tomada de posse do «Governo de Transição» com os três movimentos e, em baixo, Agostinho Neto no Palácio do Governo



A partir da altura em que Rosa Coutinho, como Alto Comissário em Angola, foi substituído por um oficial general da Força Aérea, Gonçalves Cardoso, a missão de segurança ao Palácio do Governo passou a estar atribuída aos Páraquedistas.

Passou então a estar-lhe atribuída a missão de segurança ao aeroporto de Luanda. No decorrer desta missão, surgiram por vezes situações complicadas devido ao permanente movimento de altas entidades dos três movimentos que chegavam ou partiam de Luanda e se faziam acompanhar dos respectivos elementos de segurança privados. Estas situações exigiam uma grande dose de bom senso e diplomacia, para evitar conflitos.




Em cima, a chegada de Agostinho Neto a Luanda, transportado desde o aeroporto num helicóptero da FAP e, em baixo, o aeroporto de Luanda



Num desses momentos, um elemento armado de uma espingarda automática Kalashnikov, colocou-se ostensivamente à entrada da sala VIP, por onde iria sair brevemente um dos dignatários do seu movimento. Apesar de lhe ser explicado que a segurança do aeroporto estava a cargo das forças portuguesas, não mostrava qualquer intenção de sair daquela posição, afirmando que estava a cumprir ordens. A forma encontrada de resolver o incidente foi chamar um fuzileiro com uma MG-42. Após comparar o tamanho das armas lá decidiu retirar-se para um local mais discreto.

O DFE 6 participou também em diversas acções de protecção da população que vivia nos muceques (os bairros da população nativa), na sequência de tumultos que ocorriam com alguma frequência, entre populares de diferentes movimentos. De referir que, nessa altura, os três movimentos se encontravam instalados na capital.

Em Novembro de 1974 o imediato, 2TEN FZE RN Sérgio de Almeida, regressa a Lisboa, tendo assumido essas funções o 2TEN FZE RN Paiva e Pona, tendo o 2TEN FZE RN José António Ruivo, do 21º CFORN, passado a desempenhar as funções de terceiro oficial. Para completar o quadro de oficiais com um quarto elemento é enviado o STEN FZE RN António Proença Martins, pertencente ao 24.º CFORN.

O Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 6 termina a sua comissão e regressa definitivamente a Portugal em Março de 1975.





Em cima, a vista actual da antiga localização do aquartelamento do Chilombo, junto ao rio Zambeze, podendo ainda identificarem-se algumas ruínas, o "kimbo" e o areal onde acostava a LDP 208 e, em baixo, uma perspectiva actual da Lumbala, cuja pista ainda se mantém operacional



José António Ruivo
CMG FZE - 21.º CFORN


Fontes:
Texto e imagens do CMG José António Ruivo - 21.º CFORN.


mls

quarta-feira, julho 05, 2017

Guiné, 1971 - Comboios de Lanchas e Batelões


Guiné, 1971 - Comboios de Lanchas e Batelões

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 4 de Julho de 2010)



Em cima a LFP «Procion» e, em baixo, a LDM 311.




Vila Cacheu, S. Vicente, Bissum, Ganturé, Binta e Farim foram outros tantos locais de chegada e partida de combóios de transporte e abastecimento logístico de populações e aquartelamentos no rio Cacheu.

Locais como Teixeira Pinto no rio Mansoa, Porto Gole, Xime e Bambadinca no rio Geba, Bolama, S. João e Buba no rio Grande de Buba, Catió, Cabedú, Bedanda, Impúngeda e Chugué no rio Cumbijã, Cacine e Gadamael no rio Cacine, tiveram significado idêntico.



Uma metralhadora ligeira MG 42 faz fogo de reconhecimento sobre a margem.

Sentiram-no na pele as guarnições de LFG, LDG, LFP, LDM, LDP e também Destacamentos e Companhias de Fuzileiros, naqueles e noutros locais não tão frequentemente lembrados. Também militares de outros ramos das Forças Armadas e populações transportadas.

De um destes combóios com o envolvimento operacional da LFP «Procion» e das LDM 311 e 313, em que embarcou uma equipa de reportagem, aqui deixamos um pequeno apontamento filmado.


Locução de Júlio Isidro.





Fontes:

Filme editado e montado pelo autor do blogue a partir de cópia de filme gentilmente cedida pela Escola de Fuzileiros, originalmente filmada com a colaboração da Marinha.

mls

terça-feira, julho 04, 2017

Reserva Naval em Angola - DFE 6, 1973 / 75 (Parte I)


Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 6, «Os Tubarões»
Angola, 1973/75 – parte I


(Post reformulado a partir de outro já publicado em 5 de Dezembro de 2009)




Distintivo do DFE-6, Angola 1973/75


O DFE-6 é reactivado e começa a ser organizado durante o primeiro semestre de 1973, na então Força de Fuzileiros do Continente, na Base Naval do Alfeite, local onde eram activadas e desactivadas as unidades de Fuzileiros que partiam ou regressavam do Ultramar.

Foi nomeado como seu comandante o 1TEN EMQ José Manuel Correia Graça e imediato o STEN FZE RN Sérgio Tavares de Almeida, pertencente ao 20.º CFORN (também conhecido, entre o pessoal por “negativo camarada”, pela forma como habitualmente respondia aos pedidos menos ortodoxos dos elementos do Destacamento).

Como 3.º e 4.º oficiais foram nomeados, respectivamente, os STEN FZE RN Jorge Manuel de Pina Paiva e Pona Franco e STEN FZE RN José António Ruivo, pertencentes ao 21.º CFORN e que tinham acabado de frequentar, em finais de Março, o respectivo curso de Fuzileiro Especial.




Em cima, os oficiais do DFE 6, Correia Graça, Paiva e Pona, um oficial do Exército da Companhia de Lumbala, José Ruivo, o oficial Comandante da Companhia de Lumbala e Sérgio Almeida e, em baixo, Sérgio Almeida, Paiva e Pona, José Ruivo, oficiais do DFE 6 e ainda Alberto Cavaco do pelotão de apoio da CF 1



Constituído o Destacamento, embarca para Luanda a 10 de Outubro de 1973, a bordo de um dos dois aviões Boing 707 de que a Força Aérea Portuguesa na altura dispunha. Uma vez em Luanda, o Destacamento fica instalado no aquartelamento de Belas, nos arredores da cidade.



Em cima, vista da cidade de Luanda e, em baixo, um pormenor da messe de Belas, nos arredores da cidade



O Imediato (Sérgio Almeida) e o 3.º oficial (Paiva e Pona), juntamente com metade da Unidade, seguem de imediato para o Chilombo, no Leste de Angola (saliente do Cazombo), onde iriam render o DFE 10, na altura sob o comando do 1TEN FZE RN António João Carreiro e Silva, pertencente ao 9.º CFORN.

A viagem foi feita num avião Noratlas da FAP até à Lumbala e depois em coluna de viaturas, num percurso de cerca de 30 kms, até ao aquartelamento do Chilombo. O Comandante e o 4.º oficial (José Ruivo), seguem com o resto da Unidade 15 dias depois, tendo efectuado o mesmo percurso.

A Lumbala foi o primeiro local de estacionamento de Fuzileiros no rio Zambeze, Leste de Angola. Mais tarde esse local foi ocupado pelo Exército, tendo os DFE’s passado a ocupar o Chilombo.



Em cima, o avião Noratlas na pista da Lumbala e, em baixo, um deslocamento em viaturas da Lumbala para o Chilombo



A razão da presença de Destacamentos de Fuzileiros Especiais naquela região, prendia-se com a necessidade de patrulhar o rio Zambeze e seus afluentes, numa tentativa de evitar a infiltração de elementos do MPLA, provenientes da Zâmbia, país onde tinham os seus santuários.

O aquartelamento do Chilombo ficava ao lado da aldeia (kimbo), com o mesmo nome, resultante da política de reagrupamento da população para efeitos de controlo, de modo a retirar ao inimigo essa vantagem.



Em cima, o aquartelamento do Chilombo junto ao rio Zambeze, vendo-se a LDP 208 em seco e, em baixo, uma festa “ronco”, na aldeia do Chilombo



Um pouco mais para Sudoeste era zona de actuação da UNITA, zona onde se encontrava outro Destacamento de Fuzileiros Especiais, no rio Lungué-Bungo.
O rio Zambeze atravessa o saliente do Cazombo, de Norte para Sul, passando depois pela Zâmbia, antes de entrar em Moçambique, desaguando no Oceano Índico.



Em cima, o mapa do saliente do Cazombo e, em baixo, o rio Zambeze próximo do Chilombo



Dois dos principais afluentes do rio Zambeze na região são o rio Luena e o Chifumage, que serviam igualmente como importantes vias de penetração de guerrilheiros. Durante boa parte do ano, correspondendo à época das chuvas, estes rios eram navegáveis pelos botes.

Foi numa das muitas curvas do rio Chifumage que, em 1968, uma patrulha de botes do DFE 2 sofreu forte emboscada a partir da margem, tendo resultado dois mortos. O STEN FZE RN João Manuel Sarmento Coelho, pertencente ao 10.º CFORN, foi gravemente ferido, atingido com mais de uma dúzia de tiros, tendo recuperado dos ferimentos.



O rio Luena, afluente do Zambeze, na época das chuvas

A navegabilidade do Zambeze estava muito dependente da época do ano. Durante 6 a 8 meses, correspondendo à época das chuvas, era navegável quer pelos botes quer pela Lancha de Desembarque Pequena, LDP 208, atribuída em permanência ao Chilombo. Estes eram os principais meios de deslocamento, quer para o lançamento de operações quer para o reabastecimento do DFE (que se efectuava a partir da Lumbala, situada 30 km a jusante e guarnecida por uma companhia de caçadores do Exército).



Em cima, a LDP 208 a navegar no rio Zambeze e, em baixo, uma patrulha de botes no mesmo rio



Durante mais 2 meses era ainda possível navegar com relativa facilidade com os botes (existiam dois modelos: pneumáticos “Zebro III” e de fibra, os “marujos”). Durante os meses restantes, correspondentes ao pico da época seca, eram difíceis as deslocações pelo rio, mesmo para os botes.

Nessa altura os deslocamentos, quer para o lançamento de operações quer para reabastecimento a partir da Lumbala, eram feitos essencialmente por coluna de viaturas, ficando então o pessoal mais exposto ao problema das minas (na época a principal actividade inimiga).

Durante uma operação na região Sul do saliente do Cazombo, já bastante próximo da fronteira com a Zâmbia, o pessoal do DFE caiu num campo minado, tendo o 1GRT FZE António Paulino Friezas, o “gago”, accionado uma mina anti-pessoal de que resultou a amputação de uma perna.



O Marinheiro Friezas (em primeiro plano), em patrulha no rio Zambeze

Durante o deslocamento em viaturas, para o lançamento de uma patrulha na zona da Mata do rio Matoche, a viatura em que seguia o STEN FZE RN Paiva e Pona accionou uma mina anti-carro, de que resultou a morte do condutor, MAR FZ Belo, o “cowboy”, e ferimentos ligeiros no oficial.

Foi também num deslocamento à Lumbala em coluna de viaturas, para reabastecimento, que em Junho de 1973 (4 meses antes da chegada do DFE-6), se deu a emboscada que vitimou o STEN FZ RN António Bernardino Apolónio Piteira, do 18.º CFORN, o único oficial da Marinha morto em combate durante a guerra colonial.





Viaturas na zona da emboscada à coluna do STEN FZ RN António Piteira

José António Ruivo
CMG FZE - 21.º CFORN


(continua)

Fontes:
Texto e imagens do CMG José António Ruivo - 21.º CFORN.


mls