sexta-feira, junho 16, 2017

Histórias do DFE 13 (IV) - Angola, 1965-1967


Angola-Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 13

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 1 de Janeiro de 2010)




Vasco Quevedo Pessanha-7.º CEORN


Como dizia no artigo anterior, o meu grupo de combate, entre Agosto e Outubro de 1966, esteve no posto do Tridente, no Rio Zaire, junto de Noqui.




A foz do rio Zaire com um pormenor da zona da vila de Noqui, mais a montante, assinalado.

A vida era pacata e tranquila e no nosso esquema de rotatividade sabíamos de antemão, de forma muito aproximada, o tempo que iríamos passar em cada um dos postos. Essa situação não era proporcionadora das neuras que assaltavam os nossos colegas de Noqui, como contei da última vez.

Contudo, o cumprimento da nossa missão nos diferentes postos do Zaire, também já descrita no artigo anterior, deixava­nos muito tempo livre que se tornava necessário ocupar. A localização de Tridente não facilitava a existência de um terreiro para jogar à bola estando assim posta de parte uma possível ocupação dos tempos livres da guarnição, que eram muitos.




Em cima, o Posto do Tridente e, em baixo o Posto da Pedra do Feitiço, no rio Zaire, ambos junto à foz.



Entre aulas do segundo ano do Liceu que dava a grumetes e marinheiros, tal como os camaradas que nos precederam e os que nos sucederam, fizémos muitas obras, plantámos bananeiras, hortas; a conservação e reparação dos motores e botes, patrulhas no rio, patrulhas terrestres, escalas de serviços e caçadas nocturnas aos jacarés iam tomando conta do tempo.

Pessoalmente, nos diversos postos do Zaire onde estive, li imenso, tanto livros como revistas e jornais que tinha assinado. Através do Monde ia seguindo a guerra no Vietname e realizava a sorte que muitos de nós em Angola tínhamos por não estarmos num teatro de guerra como aquele.

Mas, aqui vai a segunda história curiosa passada no Tridente e em Noqui.

Como referi, Noqui estava na linha de fronteira com o Congo e, como tal, além da guarnição militar e de um administrador havia as autoridades fronteiriças e um posto da PIDE.

Em Angola, os Pides não andavam de chapéu e gabardina, com golas levantadas, como no “Puto”, e aparentavam serem pacatos civis frequentemente confundíveis com qualquer comerciante ou cantineiro. Uma das áreas em que eles eram peritos era a gestão (como dizemos hoje!) da informação.

A sua rede de informadores, de ambos os lados da fronteira, permitia terem uma noção bastante razoável do que se passava do lado do inimigo (IN), dos seus movimentos, iniciativas, problemas, dificuldades, etc. Mas a obtenção da informação não se fazia só com chá e simpatia ou a troco de uns cobres. Fazia­se também por troca de informações. Passava-­se para o lado de lá aquilo que se achava ser pouco importante ou não reservado, na expectativa de receber em troca algo de mais sério e substancial.




O Posto da Quissanga.

Com todo esse contacto acabava por se criar um certo à vontade, quase que alguma intimidade. Os turras do lado de lá conheciam bem a nossa PIDE e eles conheciam também razoavelmente alguns deles. Enfim, todos sabemos que a vida é feita de compromissos e importa que o resultado seja positivo.

Um dia, numa das tardes que fui a Noqui beber uma cerveja com os camaradas do Exército, o médico da companhia, o "Doc" não apareceu. Estava a dormir. A dormir às quatro horas da tarde? Sim, estava a dormir e não podia ser acordado. Tinha vivido uma aventura espantosa que terminara nessa manhã e estava a recarregar as baterias.

Dias antes, a altas horas da noite, vindo do Congo, tinham­-se apresentado no posto fronteiriço de Noqui dois carros civis com negros, alguns deles armados. Queriam falar com o nosso Pide com urgência. Tinha acontecido uma desgraça e só ele poderia, eventualmente, ajudar a resolvê-­la.

Que se tinha passado?

Nesse dia, algures longe e a leste de Noqui,os turras da FNLA tinham caído numa emboscada montada pela nossa tropa (mas não a de Noqui) junto à nossa fronteira com o Congo. Tinham sofrido umas baixas, mas o pior era que, na patrulha da FNLA que tinha sofrido a emboscada, tinha sido gravemente ferido o segundo comandante da base de Kinkusu. Ora a base de Kinkusu, para quem não sabe ou já não se lembra, era um dos principais, se não o principal campo militar da FNLA no Congo e servia de apoio logístico aos grupos de guerrilheiros da FNLA que actuavam no Norte de Angola. Obviamente, a base era por sua vez apoiada pelo estado congolês.

Ora acontecia que, o segundo comandante da base tinha sido gravemente ferido pelos portugueses, encontrava-­se em estado grave e recusava­-se peremptoriamente quer a ser evacuado para qualquer hospital de Leopoldeville (depois Kinchasa), quer a ser assistido por médicos da FNLA ou congolenses. Só admitia ser tratado por médico português e por nenhum outro. Os colegas dele que se desenrascassem e descobrissem um português que fosse lá tratar dele.

Assim, na fronteira de Noqui, depois de várias horas de viagem em picada, lá estavam os negros da base de Kinkusu a pedir ao nosso Pide que mandasse o "Doc" da companhia de Noqui com eles, de regresso a Kinkusu, para safar o segundo comandante deles que tinha sido ferido por um dos nossos!




Estação radionaval de Sto. António do Zaire.

Depois de muitas súplicas e muita conversa, o nosso Pide fala com o comandante da companhia que, depois de ponderar a situação, decide acordar o "Doc" e pôr­-lhe o problema: Estaria ele disposto a ir, não se sabia muito bem onde, tentar safar um principal do IN que tinha sido ferido por comandos nossos?

As condições eram mais que precárias: garantias de regresso e segurança eram zero. Mas, se o homem fosse safo, talvez tudo naquela região pudesse vir a melhorar. Estaria ele disposto a correr o risco? O "Doc" acabou por aceitar o desafio. Arranjou a trouxa, preparou os seus instrumentos e mezinhas e lá partiu, sozinho, sem escolta nem viaturas, com aquela turma semi­-turra e semi-­civil para destino desconhecido.

Depois de algumas horas de saltos e safanões lá chegou a Kinkusu. A base militar era grande, razoavelmente organizada e guarnecida, e lá lhe puseram o segundo comandante nas mãos. Com todas as dificuldades que são fáceis de imaginar, o "Doc" conseguiu extrair-­lhe a bala que estava alojada já não me lembro onde. Tratou o turra e quando estava já relativamente fora de perigo, ao fim de alguns dias, trouxeram­-no de volta a Noqui.

Tinha chegado nessa manhã, depois de alguns dias e noites de vigília ao segundo comandante de Kinkusu, completamente exausto e, nessa tarde, estava naturalmente a refazer-­se de tudo: do susto, da emoção, do risco que tinha corrido e do cansaço físico e psicológico.

Tinha sido tratado nas palminhas, com considerações e mordomias durante os dias e noites que tinha durado aquela aventura. Não o tornei a ver pois, passados poucos dias, o meu grupo de combate largava o Tridente. Também fiquei sem saber como evoluiu a acção militar naquela terra depois deste incidente. Mas certamente para o turra que tinha sido baleado e, para o "Doc" português que o tinha tratado e salvo nas circunstâncias que relatei, muito de importante se tinha passado.

Este caso que descrevi não é único. O que de único tem para mim, é ter-­se passado perto e nas minhas barbas. Episódios bizarros deste género passaram-­se em Angola repetidamente. Seriam eles o reflexo deste nosso porreirismo nacional também já assimilado pelos nossos negros de Angola ou será que é normal e corrente as guerras fazerem-­se assim?


Vasco Quevedo Pessanha
FZE - 7º CEORN


Fontes:
Arquivo de Marinha; Anuário da Reserva Naval, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Dicionário de Navios e Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, 2006; Texto do autor do blogue compilado e corrigido a partir do publicado na Revista n.º 10 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Out 1999; Fotos de Arquivo do autor do blogue;

mls



quinta-feira, junho 08, 2017

Histórias do DFE 13 (III) - Angola, 1965-1967


Angola-Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 13

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 28 de Dezembro de 2009)




Vasco Quevedo Pessanha-7.º CEORN


Entre Agosto e Outubro de 1966 estou no posto do Tridente com o meu grupo de combate. O Tridente era o posto de fuzileiros mais a montante no rio Zaire e ficava relativamente perto de Noqui, junto à confluência do rio Lué Pequeno, afluente do Zaire.




A foz do rio Zaire com a vila de Noqui assinalada.

Cerca de 15 minutos de bote e bebia­-se uma cerveja fresca com os camaradas do Exército que ali estavam estacionados. Noqui fica a este do Tridente, numa curva do rio Zaire (que naquele ponto tem uma largura aproximadamente igual à do rio Tejo entre Belém e a Trafaria) na base de uma grande barroca. No cimo da barroca e a cerca de 10 quilómetros para o interior, ficava uma pista de terra batida, de que se serviam pequenos aviões militares que asseguravam ligações regulares com o Negage e Luanda.

A fronteira terrestre de Angola com o Congo era muito próxima de Noqui e, pelo rio Zaire, passavam diariamente vários cargueiros de 20.000 toneladas, e mais, que se dirigiam ao porto de Matadi, já na Républica do Congo.




...pelo rio Zaire passavam diariamente vários cargueiros de 20.000 toneladas, e até mais...

A nossa missão tinha um duplo objectivo: por um lado impedir a infiltração do IN, pela via fluvial do Congo para Angola e, por outro, patrulhar intensamente o interior com vista à detecção e eliminação do IN. Os que andavam por lá nesse tempo, eram os FNLA e os MPLA que não necessitavam do rio para nada, pois as ligações deles com o Congo, onde havia bases importantes, fazia­se atravessando pacatamente a fronteira terrestre fora de horas e em locais onde a tropa portuguesa não andava.




Vila de Noqui - Vista do Morro dos Canhões.

Durante todo o tempo que lá estive não tivemos qualquer acção de confrontação com o IN. Patrulhámos muito, nomadizámos muito também e aproveitámos para caçar, mas nunca vimos ninguém. O terreno era dobrado, com capim alto, com várzeas nos vales, arvoredo muito concentrado por manchas e nunca encontrámos povoações ou pessoas.

Aparentemente, dizia-­se, tinham fugido para o Congo nos inícios da guerra, em 61/62. Os horizontes eram largos e imensos e toda a região tinha uma beleza particular. Naquele lugar, aparentemente pacato, convivi de perto com duas situações bem diferentes uma da outra, mas bem reveladoras de aspectos da “nossa” guerra em Angola.

A primeira passou-­se dias antes da minha chegada ao Tridente e dos meus contactos com Noqui. Noqui era um lugar profundamente deprimente, com uma barroca por trás, um rio pela frente e calor, muito calor o tempo todo. Um dos oficiais milicianos da Companhia do Exército que lá estava estacionada, contava os dias que faltavam para terminar a comissão pela contagem dos cigarros que iria ainda fumar até lá.

Para o efeito tinha tracejado numa imensa folha de papel os cigarros que iria fumar até ao fim da comissão, à razão de vinte por dia. Cada noite, antes de se deitar, riscava na parede os cigarros que tinha fumado nesse dia e escrevia os que ainda estavam por fumar. Esta maneira de matar o tempo dá ideia do ambiente que lá se vivia.

Além de uma ou outra patrulha no interior, os jogos de cartas só eram interrompidos pelas viaturas que, duas vezes por semana, iam à pista de aterragem esperar o pequeno avião que trazia correio de Luanda.
Quase tudo o que tenho lido sobre a guerra de África, sobretudo artigos de toda a espécie, fazem gala em contar os horrores permanentes em que os nossos militares viviam.

Acho que nunca vi nada escrito sobre o ócio das guarnições que, na filosofia adoptada de quadrícula, estavam espalhadas por lugares onde pouco ou nada tinham para fazer, além de estarem lá. Noqui era um desses lugares. Não o era por ser terreno completamente seguro, como já verão de seguida, mas sim por que o IN e a tropa tinham o cuidado de se evitarem mutuamente e ninguém tomava grandes iniciativas.




Fuzileiros em acção.

Nestas circunstâncias, era normalmente muito difícil manter um rigor mínimo de horários, fardamentos, actividades, higiene e, sobretudo, de disciplina e prontidão militar. Quando a tudo isto se juntava um clima depressivo e neurótico dos oficiais, a situação descambava numa bandalheira por vezes aviltante, grosseira e, sobretudo, perigosa.

Porque afinal, apesar da relativa pacatez do local ele não era propriamente uma colónia de férias forçadas, e o IN, apesar de invisível, andava por lá. A bandalheira de Noqui teve consequências trágicas. No início o grupo que ia esperar o avião do correio era composto por uma GMC, dois Unimogs e dois ou três jeeps. O pessoal ainda tinha medo, ia fardado, armado e municiado.

O esquema de segurança era bem montado, alguém levava a “bazooka”, outro a MG 42 e, com toda a parafernália, lá faziam os dez ou quinze quilómetros em picada, no meio do capim, até à pista onde o avião aterrava em segurança, largava e levava o correio, doentes, homens que iam de férias, outros que voltavam, etc.

Duas vezes por semana, meses a fio. Patrulhas rotineiras, muita cerveja, bisca lambida, sueca e uma grande neura ocupavam o resto do tempo.
A pouco e pouco foi-­se facilitando. A GMC já não era precisa. Um dos Unimogs também não. O terreno é conhecido, é tudo boa gente, não se passa nada.

A coluna, inicialmente com quarenta homens, vai-­se reduzindo. Não vale a pena ir tanta gente. E para quê a “bazooka”? E a MG 42, que é pesadíssima? E a farda, que é quente e as munições que são desnecessárias? Se aparecer uma pacaça meia dúzia de tiros resolvem o problema e sempre se traz carne fresca.

No climax da bandalheira já só vai uma Mercedes com meia dúzia de homens em t­shirts, calções, descalços e uma ou duas G3. Os que vão são os que têm mais pressa em ler o correio deles. O cozinheiro também vai. E, por graça, porque não leva ele a “bazooka” desta vez? Vamos embora que se faz tarde e o avião está aí a chegar. O avião chega. Deixa umas cartas e leva outras. Bebem­-se umas cervejas juntos, dão-­se uns abraços e daqui a três dias cá estaremos todos outra vez. O avião parte e aquela tropa fandanga regressa a Noqui.




Fronteira Noqui-Matadi.

Só que desta vez o IN está no percurso. Teve meses para observar e estudar a evolução do comportamento daqueles homens, a bandalheira progressiva que se instalou naquela unidade e a total falta de segurança com que se movimentavam. E então dá-­se a emboscada. Bem planeada, cuidadosamente preparada, rigorosamente executada.

Dos 12 homens morreram 11, incluindo o cozinheiro da “bazooka”. O que se salvou, escondeu-­se no capim durante horas, antes de poder ir levar a triste notícia ao quartel de Noqui.

Esta história acabou como os tais relatos e artigos de que atrás falava, mas por exclusiva responsabilidade dos seus protagonistas e, especialmente, dos oficiais cujo comportamento irresponsável conduziu a que aquela simples rotina terminasse em mortes desnecessárias e inúteis.

Em várias circunstâncias que acompanhei de perto, as tragédias eram muitas vezes resultado da ligeireza e inconsciência com que algumas unidades se comportavam. Fazem lembrar um pouco aqueles suicidas das motos que gostam de andar na contramão na Estrada Marginal e, quando as coisas correm mal, se queixam­ de tudo menos deles próprios.

A outra história de Noqui ficará para uma próxima vez.


Vasco Quevedo Pessanha
FZE - 7º CEORN


Fontes:
Arquivo de Marinha; Anuário da Reserva Naval, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Dicionário de Navios e Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, 2006; Texto do autor do blogue compilado e corrigido a partir do publicado na Revista n.º 9 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Jan/Mar 1999; Fotos de Arquivo do autor do blogue;

mls

terça-feira, junho 06, 2017

11.º CFORN - Curso de Formação de Oficiais da Reserva Naval, 1967




Listagem completa do 11.º CFORN.




A tradicional fotografia de família na portaria da Escola Naval.


O ano de 1967 ficara assinalado pela incorporação, pela primeira vez na História da Reserva Naval, de dois cursos de formação de Oficiais da Reserva Naval.

O 11º CFORN, alistado em 2 de Setembro desse ano, incorporou 75 cadetes assim distribuídos pelas várias classes: 23 na classe de Marinha, 1 na classe de Engenheiros Construtores Navais, 5 na classe de Médicos Navais, 4 na classe de Engenheiros Maquinistas Navais, 10 na classe de Administração Naval, 16 na classe de Fuzileiros e 16 na classe de Técnicos Especialistas.



Classe de Técnicos Especialistas:

1 – Luis Camacho Lobo; 2 – António Reis Camelo; 3 - José Andrade Biscaya; 4 - Luis Sena Lino; 5 - Pompílio Horta Ferreira; 6 - Miguel Puppo Correia; 7 - Luis Simões Lima; 8 - Alexandre Guedes Magalhães; 9 - Rabindranath Capelo Sousa; 10 - Manuel Duque de Morais; 11 - João Gonçalves Sanches; 12 - Julio Gamboa Figueira; 13 - Diogo Freitas do Amaral; 14 - Guilherme Sousa Guimarães; 15 - Adelino Amaro da Costa;

Classe de Administração Naval:

1 - José Honorato Ferreira; 2 - Manuel Alves Dinis; 3 - Manuel Ferreira Raposo; 4 - João Branco Gonçalves; 5 - António Miranda da Rocha; 6 - Alexandre Carvalho Neto; 7 - Francisco Gonçalves Lopes; 8 - Luis Cunha Pignatelli; 9 - António Borges de Araújo; 10 - Daniel Silva Ferraz;


A classe de Técnicos Especialistas compreendia os ramos de Arquitectura, Engenharia Civil, Engenharia Electrotécnica, Engenharia Química, Engenharia Geográfica, Ciências Físico­-Químicas, Matemáticas, Geologia, Direito e Educação Física.

Foi patrono deste curso Diogo Gomes, navegador do século XV da casa do Infante D. Henrique que realizou, em 1456, uma viagem aos grandes rios da Guiné Bissau e a quem se atribui a sua descoberta. Participou, com António de Noli, navegador italiano, natural de Noli, na Ligúria e que se integrou nas viagens henriquinas à costa africana, no reconhecimento das ilhas cabo­verdianas ocidentais.




O Comodoro Lino Paulino Pereira, Comandante da Escola Naval e o Director de Instrução, CFR José Estevam de Sousa e Costa.

Era Comandante da Escola Naval o Comodoro Lino Paulino Pereira e foi Director de Instrução deste curso, o CFR Alfredo José Estevam de Sousa e Costa.

O Prémio Reserva Naval, criado e regulamentado pela Portaria 17.090 de 30 de Março de 1959, foi atribuído ao cadete da classe de Técnicos Especialistas Alexandre Augusto Morais Guedes de Magalhães.




O Cadete TE RN Alexandre Augusto Morais Guedes de Magalhães, Prémio Reserva Naval.

Durante o período de instrução na Escola Naval, aos fins-de-semana, foram levadas a cabo diversas saídas para o mar, nomeadamente nos Draga-Minas «Lagoa», «S. Pedro», «Vila do Porto» e «Lages», tomando conhecimento com a vida a bordo e praticando navegação costeira.




No primeiro embarque no Draga-Minas «Lages», da esquerda para a direita:
Henrique Oliveira Pires, António Teixeira, Joaquim Pires Costa, José Montalvão e Silva, Carlos Perdigão Silva e João Costa Poeira


A viagem de fim de curso realizou-­se nas Fragatas «Diogo Cão» e «Corte Real», comandadas respectivamente pelos CFR Eurico Serradas Duarte e CFR Mário Dias Martins. Teve lugar entre os dias 4 e 29 de Março de 1968, saindo de Lisboa e aportando a Ponta Delgada, Angra do Heroísmo, Horta, S. Vicente de Cabo Verde, Funchal e Porto Santo, antes de entrar de novo em Lisboa.

Na Fragata «Diogo Cão» embarcaram 23 cadetes da classe de Marinha, 5 da classe de Médicos Navais, 1 da classe de Construtores Navais, 4 da classe de Engenheiros Maquinistas Navais e 4 da classe de Técnicos Especialistas (do ramo de Direito).

A Fragata «Corte Real» alojou 10 cadetes da classe de Administração Naval, 16 da classe de Fuzileiros e os restantes 12 da classe de Técnicos Especialistas.




Na viagem a Cabo Verde, um grupo de cadetes prepara-se para escutar a cantora Cesária Évora

Em cerimónia que teve lugar no dia 5 de Abril e presidida pelo Ministro da Marinha, CALM Fernando Quintanilha de Mendonça Dias, os cadetes prestaram o seu Juramento de Bandeira, sendo que um dos inicialmente referidos, não tendo obtido aproveitamento, foi mandado destacar para o Centro de Alistamento e Adidos a fim de ser alistado como 1º grumete Fuzileiro (Portaria 22.016 de 20 de Maio de 1966).

Entretanto, começaram os primeiros destacamentos para comissões de serviço no Ultramar, com realce para o facto único na História da Reserva naval de, um oficial ter sido enviado para Macau. Foi o então 2º TEN AN RN, António Francisco Oliveira Miranda da Rocha. Ali permaneceu durante dois anos, legando ao Museu da AORN – Associação dos Oficiais da Reserva Naval, um valioso espólio histórico, constituído por dezenas de documentos e fotografias que relatam fielmente, em muitos domínios, o que foi a vida naquele território entre os anos de 1968 e 1970, incluindo a visita da Fragata «Comandante João Belo», comandada pelo CFR Leonel Cardoso, por ocasião dos incidentes da revolução, na República Popular da China, encetada pelos guardas vermelhos.



Sessão comemorativa do Centenário do ALM Gago Coutinho em Macau, (da esq. para a dir.): CFR Manuel de Sousa Barbosa, Comandante da Defesa Marítima, Dr. Alberto Eduardo da Silva, Secretário Geral de Macau, GEN Nobre de Carvalho, Governador de Macau, Juíz Dr. Leal de Carvalho, Chefe dos Serviços Judiciais, o historiador/jornalista Luis Gonzaga Gomes e Miranda da Rocha proferindo a sua palestra

Destacamos ainda, a sua intervenção na sessão comemorativa do centenário do Almirante Gago Coutinho, como orador oficial da Província, em cerimónia presidida pelo então Governador, o General Nobre de Carvalho.

Entretanto, a Marinha tinha prosseguido em 1967 o plano de modernização com a vinda da Fragata «Comandante João Belo» e aumentando ao efectivo de navios da Armada as fragatas «Almirante Gago Coutinho», as lanchas de fiscalização «Albufeira», “Dom Aleixo” e «Dom Jeremias». Abatera ao mesmo efectivo o aviso «Afonso de Albuquerque», o destroyer «Vouga», o submersível «Neptuno», o navio oceanográfico «Salvador Correia», o caça-minas «Faial» e o navio-patrulha «Santiago».

Já no decorrer do ano de 1968, a prossecução do mesmo plano conjuntamente com a necessidade de reforçar os meios navais empenhados na Guerra do Ultramar, reflectiu-se no aumento ao efectivo de diversas unidades navais: as Fragatas «Almirante Magalhães Correia», «Comandante Hermenegildo Capelo» e «Comandante Roberto Ivens», as LFP’s «Arcturus», «Aldebaran», «Procion» e «Aljezur», o submersível «Barracuda» e a lancha hidrográfica «Cruzeiro do Sul».

No decorrer do mesmo período, foram abatidos ao mesmo efectivo as Fragatas «Corte Real», «Diogo Cão», «Diogo Gomes», o navio-patrulha «Sal» e ainda a LFP «Castor».




A fragata «Diogo Cão»

Todos estes navios, aumentados e abatidos ao efectivo dos navios da Armada, desempenharam, por diversificadas e específicas razões, um papel relevante na História da Reserva Naval. Refere-se especialmente a LFP «Castor» que, em 1968, na Base Naval de Metangula, foi cedida à República do Malawi com o nome de «John Chilembwe» em cerimónia presidida pelo então Comandante Naval de Moçambique, Contra-Almirante Tierno Bagulho e com a presença de entidades dos dois países. Era então comandante da LFP «Castor» o 2TEN RN Manuel Alexandre de Sousa Pinto Agrelos do 9.º CFORN.

Também o Lago Niassa e a Base Naval de Metangula ficarão registados como locais míticos indissociavelmente ligados a este curso e à História da Reserva Naval. O largamente divulgado "Cancioneiro do Niassa” é disso um testemunho vivo, sem que este apontamento represente a marcação de diferença relativamente a qualquer outro curso.


Deste curso, seguiram para comissões muitos dos seus elementos, como Comandantes ou oficiais Imediatos de navios, integrando Companhias e Destacamentos de Fuzileiros, tendo sido designados para prestar serviço em África, ou Continente e Ilhas, os seguintes oficiais:

Guiné (15 Oficiais):

2TEN RN Euclides da Cunha Santiago de Almeida, LFG «Hidra»;
2TEN RN Henrique Nunes de Oliveira Pires, LFP «Canopus»;
2TEN RN Jacinto Saraiva Baptista, LFP «Aldebaran»;
2TEN RN Jorge Carvalho dos Santos, CDMG Guiné;
2TEN RN Manuel Maria Caldeira Potes Cordovil, CDMG Guiné;
2TEN AN RN Alexandre Augusto Figueiredo de Carvalho Neto, CDMG Guiné;
2TEN AN RN Francisco José Palma Gonçalves Neto, CDMG Guiné;
2TEN RN Luis Mendes do Nascimento, LFG «Orion»;
2TEN RN Manuel João Leitão de Freitas, LDG «Montante»;
2TEN RN Maximiano José Guerra de Almeida Martins, LFG «Sagitário»;
2TEN FZE RN José Luis Raposo Roque de Pinho, DFE 13;
2TEN FZE RN Vasco Manuel Teixeira da Cunha Brazão, DFE 13;
2TEN FZ RN António José Rodrigues da Hora, CF 6;
2TEN FZ RN Carlos Alberto Gil Nascimento e Silva, CF 6;
2TEN FZ RN Fernando José Penim Redondo, CF 6;

Cabo Verde (1 Oficial):

2TEN TE RN João Alberto Gonçalves Sanches, Comando Naval de Cabo Verde;

Angola (15 Oficiais):

2TEN RN José Manuel de Magalhães Vieira de Sá, LFP «Fomalhaut»;
2TEN RN Silas Esteves Pego, LFG «Escorpião»;
2TEN EMQ RN Luis Alberto Canas Pereira dos Santos, Comando Naval de Angola;
2TEN MN RN Joaquim Luis da Silva Borges, CF 7;
2TEN FZ RN António Roque Taco Calado, CF 7;
2TEN FZ RN José Monteiro Sousa, CF 7;
2TEN FZ RN Otílio Fernando Gonçalves dos Reis, CF 7;
2TEN MN RN Edward Stadlin Limbert, CF 8;
2TEN MN RN Francisco Manuel Mont’ Alverne Rocha, CF 5;
2TEN FZ RN António Avelino Moreira Martins, CF 5;
2TEN FZ RN António Homem Caldeira Pessanha, CF 5;
2TEN FZ RN Daniel Brás Barreiros Maymone, CF 5;
2TEN FZ RN João Alexandre de Brito Castilho Alves Pereira, CF5;
2TEN MN RN Luis Eduardo Canaveira Manso, CF 9;
2TEN FZE RN Fernando Alberto Prado Dias de Freitas, DFE 2;

Moçambique (4 Oficiais):

2TEN RN Manuel Agostinho de Castro Freire de Menezes, LFP «Mercúrio»;
2TEN MN RN Ricardo Manuel Migães de Campos, CF 4;
e 2TEN FZ RN João Alberto de Bettencourt Dias, CF 4;
2TEN RN Manuel Joaquim dos Santos Alves Dinis, Comando Naval de Moçambique;

Continente, Ilhas e Outras Unidades (38 Oficiais):

2TEN RN António Arménio Vaz Serra Pacheco, GR n.º 1 EA;
2TEN RN António Nuno Figueira de Campos Teixeira, GR n.º 1 EA;
2TEN FZ RN João Evaristo Carapinha, GR n.º 1 EA;
2TEN TE RN Luis Augusto Marques de Sena Lino, GR n.º 1 EA;
2TEN RN António Joaquim Rosado da Cruz, navio-patrulha «Santo Antão»;
2TEN RN Carlos da Cunha Perdigão Silva, Estado-Maior da Armada;
2TEN EMQ RN João Augusto Costa Poeira, Estado-Maior da Armada;
2TEN AN RN Luis Bruno Ferreira da Cunha Pignatelli, Estado-Maior da Armada;
2TEN TE RN Diogo de Pinto Freitas do Amaral, Estado-Maior da Armada;
2TEN TE RN Guilherme António de Sousa Guimarães, Estado-Maior da Armada;
2TEN RN Carlos Joaquim Teixeira Gomes, GR n.º 2 EA;
2TEN RN José António Alves da Trindade Leitão, GR n.º 2 EA;
2TEN EMQ RN José Martins Montalvão de Santos Silva, GR n.º 2 EA;
2TEN AN RN João Jorge Castelo Branco Gonçalves, GR n.º 2 EA;
2TEN TE RN Luis Alberto Camacho Lobo, GR n.º 2 EA;
2TEN RN Francisco José Ramos Bisca, Direcção do Serviço de Instrução;
2TEN RN João Filipe Cardoso Prata, mLF «Espadilha»;
2TEN RN Joaquim Pires Costa, LF «Bicuda»;
2TEN RN José Augusto Lima de Barros Raposo, LF «Dourada»;
2TEN RN José António de Freitas Mariguesa, Intendência Serviços de Adm. Financeira da Marinha;
2TEN AN RN José Eduardo Ferreira Raposo, Intendência Serviços de Adm. Financeira da Marinha;
2TEN AN RN José Gomes Honorato Ferreira, Intendência Serviços de Adm. Financeira da Marinha;
2TEN RN Manuel Carrapatoso Duque de Morais, Direcção do Serviço de Armas Navais;
2TEN ECN RN Henrique Luis Sanches e Brito, Direcção de Construções Navais;
2TEN EMQ RN Augusto Monteiro Gomes, Direcção do Serviço de Abastecimento;
2TEN AN RN António Diogo Crispiniano Borges de Araújo, Direcção do Serviço de Abastecimento;
2TEN AN RN Daniel Germano das Neves Silva Ferraz, Direcção do Serviço de Abastecimento;
2TEN TE RN Adelino Manuel Lopes Amaro da Costa, Instituto Hidrográfico;
2TEN TE RN Agostinho Maurício de Paiva de Oliveira, Instituto Hidrográfico;
2TEN TE RN José Luis de Andrade Biscaya, Instituto Hidrográfico;
2TEN TE RN Júlio Gamboa Figueira, Instituto Hidrográfico;
2TEN TE RN Luis Manuel Correia Simões Lima, Instituto Hidrográfico;
2TEN TE RN Mário Luis de Sousa Rombert, Instituto Hidrográfico;
2TEN TE RN Alexandre Augusto Morais Guedes de Magalhães, Tribunal Militar de Marinha;
2TEN TE RN António Manuel Braga Reis Camelo,Base Naval de Lisboa;
2TEN TE RN Pompílio Horta Ferreira, Base Naval de Lisboa;
2TEN TE RN Miguel José de Almeida Pupo Correia, DSP- 4.ª Rep;
2TEN TE RN Rabindranath Valentino Aleixo Capelo de Sousa, Direcção-Geral de Marinha;

Macau (1 Oficial):

2TEN AN RN António Francisco Oliveira Miranda da Rocha, CDM de Macau;




Encontro de Évora, na Quinta de S. José do Cano, de Manuel Cordovil, em 17­ de Abril de 1999.
De pé: João Cardoso Prata, António Serra Pacheco, Manuel Cordovil, Capelo de Sousa, Duque de Morais, Leitão de Freitas, Mendes Nascimento, Perdigão e Silva, Ramos Bisca, Rosado da Cruz, Saraiva Baptista e Campos Teixeira; Sentados: Ricardo Campos, Miranda da Rocha, Carvalho Neto, Francisco Gonçalves Lopes, Andrade Biscaya, Puppo Correia e Gamboa Figueira;


Um CFORN que, na senda de tantos outros, a Marinha uniu para sempre e que tem regularmente promovido diversos encontros e convívios. Aqueles que nesses dias se reencontraram e continuam a fazê-lo, nunca deixaram de recordar e manter viva a lembrança daqueles para quem a estrada da vida foi mais curta, embora com a certeza de que também esses marcarão a sua presença na memória de todos.


Nota:
As referências históricas aos diversos cursos da Reserva Naval não são mais do que lembranças do tempo em que, entrados cadetes na Escola Naval, dali saíram oficiais para um período de serviço na Armada, mais ou menos longo. Servirão de base para um relato alargado do percurso de cada um, com destaque para a vida que mais tarde continuaram como cidadãos civis. Daí que, pese embora o desejo de que fossem salientados aspectos posteriores da sua vida pública, se limitem, neste esquiço, ao tempo efectivo em que envergaram a farda do botão de âncora.




Galeria de Fotos:





Fontes:

Arquivo de Marinha; Anuário da Reserva Naval, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, 1992, Lisboa; Dicionário de Navios e Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, 2006; Texto compilado e actualizado pelo autor do blogue a partir do publicado na Revista n.º 15 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Março 2003; Fotos de Arquivo do autor do blogue;

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