quinta-feira, junho 08, 2017

Histórias do DFE 13 (III) - Angola, 1965-1967


Angola-Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 13

(Post reformulado a partir de outro já publicado em 28 de Dezembro de 2009)




Vasco Quevedo Pessanha-7.º CEORN


Entre Agosto e Outubro de 1966 estou no posto do Tridente com o meu grupo de combate. O Tridente era o posto de fuzileiros mais a montante no rio Zaire e ficava relativamente perto de Noqui, junto à confluência do rio Lué Pequeno, afluente do Zaire.




A foz do rio Zaire com a vila de Noqui assinalada.

Cerca de 15 minutos de bote e bebia­-se uma cerveja fresca com os camaradas do Exército que ali estavam estacionados. Noqui fica a este do Tridente, numa curva do rio Zaire (que naquele ponto tem uma largura aproximadamente igual à do rio Tejo entre Belém e a Trafaria) na base de uma grande barroca. No cimo da barroca e a cerca de 10 quilómetros para o interior, ficava uma pista de terra batida, de que se serviam pequenos aviões militares que asseguravam ligações regulares com o Negage e Luanda.

A fronteira terrestre de Angola com o Congo era muito próxima de Noqui e, pelo rio Zaire, passavam diariamente vários cargueiros de 20.000 toneladas, e mais, que se dirigiam ao porto de Matadi, já na Républica do Congo.




...pelo rio Zaire passavam diariamente vários cargueiros de 20.000 toneladas, e até mais...

A nossa missão tinha um duplo objectivo: por um lado impedir a infiltração do IN, pela via fluvial do Congo para Angola e, por outro, patrulhar intensamente o interior com vista à detecção e eliminação do IN. Os que andavam por lá nesse tempo, eram os FNLA e os MPLA que não necessitavam do rio para nada, pois as ligações deles com o Congo, onde havia bases importantes, fazia­se atravessando pacatamente a fronteira terrestre fora de horas e em locais onde a tropa portuguesa não andava.




Vila de Noqui - Vista do Morro dos Canhões.

Durante todo o tempo que lá estive não tivemos qualquer acção de confrontação com o IN. Patrulhámos muito, nomadizámos muito também e aproveitámos para caçar, mas nunca vimos ninguém. O terreno era dobrado, com capim alto, com várzeas nos vales, arvoredo muito concentrado por manchas e nunca encontrámos povoações ou pessoas.

Aparentemente, dizia-­se, tinham fugido para o Congo nos inícios da guerra, em 61/62. Os horizontes eram largos e imensos e toda a região tinha uma beleza particular. Naquele lugar, aparentemente pacato, convivi de perto com duas situações bem diferentes uma da outra, mas bem reveladoras de aspectos da “nossa” guerra em Angola.

A primeira passou-­se dias antes da minha chegada ao Tridente e dos meus contactos com Noqui. Noqui era um lugar profundamente deprimente, com uma barroca por trás, um rio pela frente e calor, muito calor o tempo todo. Um dos oficiais milicianos da Companhia do Exército que lá estava estacionada, contava os dias que faltavam para terminar a comissão pela contagem dos cigarros que iria ainda fumar até lá.

Para o efeito tinha tracejado numa imensa folha de papel os cigarros que iria fumar até ao fim da comissão, à razão de vinte por dia. Cada noite, antes de se deitar, riscava na parede os cigarros que tinha fumado nesse dia e escrevia os que ainda estavam por fumar. Esta maneira de matar o tempo dá ideia do ambiente que lá se vivia.

Além de uma ou outra patrulha no interior, os jogos de cartas só eram interrompidos pelas viaturas que, duas vezes por semana, iam à pista de aterragem esperar o pequeno avião que trazia correio de Luanda.
Quase tudo o que tenho lido sobre a guerra de África, sobretudo artigos de toda a espécie, fazem gala em contar os horrores permanentes em que os nossos militares viviam.

Acho que nunca vi nada escrito sobre o ócio das guarnições que, na filosofia adoptada de quadrícula, estavam espalhadas por lugares onde pouco ou nada tinham para fazer, além de estarem lá. Noqui era um desses lugares. Não o era por ser terreno completamente seguro, como já verão de seguida, mas sim por que o IN e a tropa tinham o cuidado de se evitarem mutuamente e ninguém tomava grandes iniciativas.




Fuzileiros em acção.

Nestas circunstâncias, era normalmente muito difícil manter um rigor mínimo de horários, fardamentos, actividades, higiene e, sobretudo, de disciplina e prontidão militar. Quando a tudo isto se juntava um clima depressivo e neurótico dos oficiais, a situação descambava numa bandalheira por vezes aviltante, grosseira e, sobretudo, perigosa.

Porque afinal, apesar da relativa pacatez do local ele não era propriamente uma colónia de férias forçadas, e o IN, apesar de invisível, andava por lá. A bandalheira de Noqui teve consequências trágicas. No início o grupo que ia esperar o avião do correio era composto por uma GMC, dois Unimogs e dois ou três jeeps. O pessoal ainda tinha medo, ia fardado, armado e municiado.

O esquema de segurança era bem montado, alguém levava a “bazooka”, outro a MG 42 e, com toda a parafernália, lá faziam os dez ou quinze quilómetros em picada, no meio do capim, até à pista onde o avião aterrava em segurança, largava e levava o correio, doentes, homens que iam de férias, outros que voltavam, etc.

Duas vezes por semana, meses a fio. Patrulhas rotineiras, muita cerveja, bisca lambida, sueca e uma grande neura ocupavam o resto do tempo.
A pouco e pouco foi-­se facilitando. A GMC já não era precisa. Um dos Unimogs também não. O terreno é conhecido, é tudo boa gente, não se passa nada.

A coluna, inicialmente com quarenta homens, vai-­se reduzindo. Não vale a pena ir tanta gente. E para quê a “bazooka”? E a MG 42, que é pesadíssima? E a farda, que é quente e as munições que são desnecessárias? Se aparecer uma pacaça meia dúzia de tiros resolvem o problema e sempre se traz carne fresca.

No climax da bandalheira já só vai uma Mercedes com meia dúzia de homens em t­shirts, calções, descalços e uma ou duas G3. Os que vão são os que têm mais pressa em ler o correio deles. O cozinheiro também vai. E, por graça, porque não leva ele a “bazooka” desta vez? Vamos embora que se faz tarde e o avião está aí a chegar. O avião chega. Deixa umas cartas e leva outras. Bebem­-se umas cervejas juntos, dão-­se uns abraços e daqui a três dias cá estaremos todos outra vez. O avião parte e aquela tropa fandanga regressa a Noqui.




Fronteira Noqui-Matadi.

Só que desta vez o IN está no percurso. Teve meses para observar e estudar a evolução do comportamento daqueles homens, a bandalheira progressiva que se instalou naquela unidade e a total falta de segurança com que se movimentavam. E então dá-­se a emboscada. Bem planeada, cuidadosamente preparada, rigorosamente executada.

Dos 12 homens morreram 11, incluindo o cozinheiro da “bazooka”. O que se salvou, escondeu-­se no capim durante horas, antes de poder ir levar a triste notícia ao quartel de Noqui.

Esta história acabou como os tais relatos e artigos de que atrás falava, mas por exclusiva responsabilidade dos seus protagonistas e, especialmente, dos oficiais cujo comportamento irresponsável conduziu a que aquela simples rotina terminasse em mortes desnecessárias e inúteis.

Em várias circunstâncias que acompanhei de perto, as tragédias eram muitas vezes resultado da ligeireza e inconsciência com que algumas unidades se comportavam. Fazem lembrar um pouco aqueles suicidas das motos que gostam de andar na contramão na Estrada Marginal e, quando as coisas correm mal, se queixam­ de tudo menos deles próprios.

A outra história de Noqui ficará para uma próxima vez.


Vasco Quevedo Pessanha
FZE - 7º CEORN


Fontes:
Arquivo de Marinha; Anuário da Reserva Naval, Adelino Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado, Lisboa, 1992; Dicionário de Navios e Efemérides, Adelino Rodrigues da Costa, 2006; Texto do autor do blogue compilado e corrigido a partir do publicado na Revista n.º 9 da AORN - Associação dos Oficiais da Reserva Naval, Jan/Mar 1999; Fotos de Arquivo do autor do blogue;

mls

2 comentários:

caçador disse...

oi muito bom dia meu caro ex camarada de nóqui eu na net nunca li um comentario tao verdadeiro eu estive perto de nóqui pois ia la todo dia mas eu estive em m,,pala de maio de 65 até o começo de dezembro de 66 mas nós nunca fomos atacados eu como fui emprestado para lofico 2 meses só lá a que estourou uma mina debaixo da gmc mas a mina era fraca e só tirou os peneus da frente eu me machoquei muito pouco mas vc escreveu a coisa mais verdade do mundo clraro o ser humano a relachado os turras nao atacavam mas eles andavam sempre nos vigiando que eles sabiam a onde a gente passava todo o dia eu era da compahia 777 e jantei no acampamento de voces no final de 65 ou começo de 66 que nós embarcamos em nóqui para irmos a luanda pegar carros que os nossos estam muito velhos claro fomos numa fragata e deram uma parada no vosso posto e sabes de uma coisa quem trabalhava mais eram os fuzileiros mesmo que trabalhavam na mata e nos rios e aquele rio zaire era largo e como vc sabe nós ficavamos colados mesmo no tal do congo ex belga eu fui meu camara almoçei muitas vezes no restaurento do sr machado e tomava cerveja cuca ou nocal mas foi ruim no mamento estou no brasil meu e-mail a g.necho@hotmail.com meu nome guilherme e bom dia

caçador disse...

meu ex camarada falou certissimo mas nao sabe da maior eu como já falei ia 4 vezes por semana a nóqui mas iamos sempre com 4 carros e 30 homens ficamos lá 19 meses nao sofremos um ataque mas os maçaricos que nos foram render ó cabo de 10 ou 12 dias sofreram um ataque violento e morreram 14 ou 15 homens porque porque só levavam um carro ai o in nao a bobo e foi o que aconteceu e nós ainda estavamos em lunda fazendo operacoes lá pela fazenda do margarido e fazenda maris fernanda ali nao era mole era ruim mas mesmo assim o in nao levava a melhor teve alguns que a gente apanhou lá perto de nóqui que nunca mais ninguem os viu outra hora eu conto mais vou falar de lufico tomboco e ambriz e ambrizet